Cuidado para não Desmaiar

Hebreus 12:3 Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.

À medida que o tempo passa e a iniquidade prospera, a nossa fé vai sendo provada e, em determinados momentos, chegamos a nos questionar se vale a pena viver tantos embates, conflitos e renúncias diárias que temos que fazer. O tempo desgasta tudo. Esfria relacionamentos, afeta a perseverança e nos deixa, em alguns momentos, vulneráveis ao pecado. A jornada cristã não é uma corrida de cem metros e sim uma longa maratona, que nos exige manter os olhos firmes no alvo final, o qual é o próprio Jesus, a pérola de grande valor.

No mesmo capítulo, o escritor chega a alertar para o perigo dos embaraços que podem prejudicar, nos impedindo de completar nossa maratona. Esses embaraços podem ser a falta de vigilância, distanciamento do relacionamento com a igreja, busca exagerada por realizações pessoais como estudos, trabalho, lazer e as carências emocionais que leva muitos a abandonarem ao Senhor correndo o risco de não encontrarem mais o lugar do arrependimento.

Nesse contexto, o escritor de hebreus nos convida a considerarmos atentamente como Jesus lidou com as pressões diárias contra si, vs 3. Ele enfrentou o antagonismo do mundo, ataques do reino das trevas, tentações e todo tipo de sofrimentos e venceu, pois se lembrava da alegria final que teria como recompensa de sua obediência. HB 12:2

Olhar o exemplo de Cristo é tão importante para nós que o escritor está dizendo que, quem não o fizer, ficará fadigado em sua caminhada e pode desmaiar sem forças para seguir adiante. Uma pessoa fadigada é alguém com um cansaço constante, desanimado e abatido. É algo muito mais psicológico que físico. É a fé que se esfriou devido às negligências com a vida espiritual. Se queremos chegar ao fim dessa jornada, precisamos considerar atentamente como nosso mestre enfrentou todas as circunstâncias e venceu para não desfalecermos em nossos corações. Nesse final, somente os que permanecerem olhando para Jesus conseguirão antever a alegria que os aguardam ao cruzar a linha de chegada.

1 Coríntios 2:9 mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.

Uma santa vocação!

Lucas 4:43 Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado.

Todos os homens buscam uma razão para viver, algo que dê significado à sua breve jornada nessa terra. A vida em torno de si é cansativa e tediosa. Para os filhos de Deus, viver para si é uma armadilha fatal, pois esse caminho está na contramão da proposta que Ele fez a nós, (2Co 5:15). O cristão não é chamado para viver em torno de sua própria vida, mas para aquele que o resgatou. Embora o Senhor nos garanta que está atento às nossas necessidades, Ele sabe o quanto somos tendenciosos a fazer dos nossos desejos e sonhos um ídolo que irá nos consumir, nos escravizando à vida do ego, atraídos cada vez mais pelo que é humano.
As conquistas materiais e emocionais nos dão alegrias, satisfazendo por algum tempo, mas somente o sentimento de estarmos no centro da vontade de Deus leva-nos a descobrir o sentido pleno de nossas vidas. Bons empregos, bens e êxito no amor são legítimos, todavia, nesse caminho da vida voltada para si, encontramos uma legião de desanimados na fé, frustrados e mortos espiritualmente, amargando as consequências de colocar o senhor num plano secundário em suas vidas. Se você nasceu de novo, o Espírito Santo estará sempre lembrando o motivo desta experiência. Cada vez que você obedece a esse chamado, compartilhando com outros o amor de Deus, seu coração é tomado de uma alegria inexplicável e um senso de realização que se assemelha ao que Jesus disse no texto citado no início.
Voltando à fala de jesus, percebemos nele um senso de destino bem estabelecido, totalmente entregue à vontade do pai. Respondendo à pergunta dos seus discípulos, afirma que a sua comida era fazer a vontade de Deus e realizar a sua obra. Jo 4:34. A vontade do pai alimentava seu coração e era a força motriz que o impulsionava, dando sentido pleno à sua vida nesse mundo.
Nunca ninguém viveu em situação tão adversa como Jesus e foi tão resolvido emocional e espiritualmente. Ele chega a dizer que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida, MC 10:45. Ao olharmos para a vida do nosso mestre e o teor de sua mensagem devemos nos perguntar em que ponto de nossa caminhada abandonamos o primeiro amor e a prática das primeiras obras, AP 2:4-5, nos arrependermos em quebrantamento e rendição diante do nosso Deus que nos chamou com uma santa vocação para vivermos em louvor de sua glória. 2Tm 1:9

2 Tessalonicenses 1:11 Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé,

Solene Advertência!


Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele”. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que crêem e são salvos. HB 10:38-39. NVI.

Qualquer vitória que alcançamos até aqui foi e continuará sendo pela fé. É pela fé que perseveramos, renunciamos e nos esforçamos para agradar a Deus. Pela fé, visamos ser fiéis ao Senhor, enfrentando toda oposição das trevas, do mundo com suas seduções e da carne com suas tentações. A fé firme mantém nosso olhar na eternidade e, quando a fé definha, começamos a olhar para nós mesmos, dando os primeiros passos para o retrocesso em nossa vida espiritual. O Senhor deixa claro que não se agrada dos que retrocedem e o trocam por qualquer outra coisa.

O apóstolo termina este capítulo afirmando que nós não somos dos que retrocedem para a perdição. Nossas escolhas têm consequências diante de Deus e algumas dessas escolhas podem nos levar à perdição. Decidir por Deus e sua vontade é uma escolha da fé, que resultará na nossa vitória final, a salvação de nossas almas.

Cabe a cada um de nós refletir como está a nossa fé após tantos anos de caminhada, e se necessário, nos arrependermos, buscando ajuda e renovo para os nossos corações.

1 João 5:4 porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.

Lembra do início de tudo?


Hebreus 10:32 Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições.

Para aqueles que estão no limiar de abandonar sua fé ou estão cedendo aos seus próprios desejos, fraquezas ou tentações, o escritor de hebreus traz uma exortação solene: lembrem-se dos dias passados em que as lutas, aflições e tentações eram desafios à perseverança e à santificação. Lembrem-se, quando cada obstáculo, fossem no meio da família, no trabalho, fossem humilhações ou perseguições, não importavam, tudo nos levava para mais perto de Cristo e da igreja.
Se porventura, devido ao desgaste da longa caminhada, começamos a tirar os olhos do Senhor e a nos sentirmos coitadinhos, carentes demais, e justificarmos comportamentos pecaminosos ou rebeldes em nosso coração. Então escritor da carta aos hebreus, nos convida a olhar para os dias do primeiro amor nos quais suportamos todo tipo de aflições com alegria pelo grande desejo de agradar ao Senhor e saímos vencedores.
Às vezes, precisamos olhar para trás e rememorar toda bondade do Senhor em nos alcançar, para podermos seguir adiante. Ao me lembrar do início de tudo, agradeço a ele de onde ele me tirou, dos irmãos que ele usou para me ensinar os primeiros passos, da alegria que a igreja, em sua simplicidade, me acrescentou por meio de pessoas simples, amáveis e comprometidas com o seu reino.
Lembrar-se de quando ele nos iluminou ao revelar seu filho a nós, torna-se um antídoto poderoso nesses dias tenebrosos para resistir à tentação de flertar com a ideia de retroceder, sejam quais forem os inimigos que se levantem contra nós.

Hebreus 10:35 Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão.36 Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa.

Consegue se alegrar em Deus?


Salmos 75:9 Quanto a mim, exultarei para sempre; salmodiarei louvores ao Deus de Jacó.

Todo o nosso descontentamento por aquilo que nos falta procede da nossa falta de gratidão por aquilo que temos.” – Daniel Defoe.

A falta de gratidão definha a alma e lança o homem no abismo da constante insatisfação. A pressão do mundo com suas ofertas ilusórias de felicidade em coisas, posses e realizações está adoecendo essa geração que já não consegue mais desfrutar do prazer da gratidão.
Temos também a engenharia demoníaca das redes sociais que bombardeia os corações com histórias de sucesso de pessoas que ganham muito dinheiro em pouco tempo, famosos postando mentiras e pessoas comuns vendendo a imagem da vida perfeita, ocultando, é claro, seus reais problemas. Sem contar o excesso de entretenimento que consome horas preciosas do tempo. As dificuldades do cotidiano são propositadamente escondidas.
Enredados nessa teia de modismos, da saúde perfeita, viagens e festas que permeiam as telas dos celulares, muitos se sentem frustrados por não viverem nesse “oásis” virtual onde tudo parece o paraíso na terra. Certamente, essas fontes não podem nutrir a alma dos filhos de Deus.
Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração, Mt 12:34 e encontramos nas palavras do salmista um coração tomado pela contemplação, adoração e alegria no Senhor. Ele exclama: “exultarei para sempre”, “salmodiarei louvores ao Deus de Jacó“. Esse estado de fascínio com a glória de Deus não pode ser alcançado desperdiçando tempo com futilidades, mas buscando conhecê-lo e experimentá-lo através da oração, meditação e relacionamento com pessoas que andam perto dele em comunhão.
Exultar para sempre no senhor e salmodiar ao seu nome traz refrigério à alma e plena alegria ao coração. É a gratidão despretensiosa que não depende de ter ou não ter, mas do prazer que o Espírito produz em nosso coração por sermos do Senhor e nada mais. Nos alegremos no Deus da nossa salvação!

Uma prova de fogo.


1 Pedro 1:7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo;

A nossa fé está sendo provada por Deus dia a dia. Assim como o fogo prova o ouro e o purifica, assim também a nossa fé é provada diariamente para sermos aperfeiçoados e aprovados por Ele. Os homens dão grande valor ao ouro e às riquezas, o apóstolo, porém, está nos dizendo que para Deus, a nossa fé é mais preciosa do que o ouro que perece.
Ele valoriza a perseverança dos seus filhos em meio às dificuldades do dia a dia, com fé em suas promessas, mesmo quando as circunstâncias não são favoráveis. Às vezes nos abatemos com nossas próprias fraquezas, outras nos decepcionamos com pessoas as quais amamos. Há momentos em que nossos planos parecem que não irão se concretizar, ficamos confusos e desanimados, e, nesse processo, nossa fé está sendo provada e purificada como o ouro, para no final, sermos aprovados por ele, ouvindo de seus lábios: “vinde benditos de meu pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”. Mt 25:34.
Então, não reclame das circunstâncias. Podemos não enxergar o quadro todo, mas ele é o Deus que trabalha para nos aperfeiçoar a cada dia. Não estranhe as fases difíceis de seu caminhar, pois o nosso Deus tem grande expectativa em nossa vitória final. Seja perseverante!

1 Pedro 1:9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

Provem e vejam que Ele é bom!

Salmos 34:8 Oh! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. 9 Temei o Senhor, vós os seus santos, pois nada falta aos que o temem.

O salmista nos convida a provar a bondade do Senhor. Nos chama a ir além da fé cega e infantil. Um chamado ao relacionamento maduro com Deus, firmado na sua fidelidade que é provada a nós diariamente. “Provar e ver” não é um chamado aos testes infantis de crianças mimadas que querem aprovação para seus projetos e tentam usar Deus para fins medíocres e egoístas.
Provar é experimentar sua fidelidade que nunca falha. Sua presença confortadora em meio às adversidades é a certeza de que Ele é fiel e se agrada dos que nele confiam. Provar é aceitar sua condução em nossas vidas, mesmo não entendendo todo o seu plano a nosso respeito.
É o convite ao relacionamento sedimentado no conhecimento de quem ele é. Ele é bom em qualquer circunstância. Até o imperativo para temer ao Senhor no vs 9 está baseado na sua fidelidade, pois se alguém diz que teme ao Senhor, mas não confia nele nos momentos difíceis, é porque não o conhece.

Prove! Experimente! Tenha a experiência de que o Senhor é bom, dia após dia, ano após ano, então a fé se tornará firme, madura e inabalável. Então teremos paz em qualquer circunstância, como disse o apóstolo Paulo.

Filipenses 4:11 Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. 12 Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; 13 tudo posso naquele que me fortalece.

Ele reitera que sua caminhada foi um aprendizado que o conduziu a esse nível de amadurecimento. “Porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação”. Está implícito nesta afirmação sofrimentos, angústias, desesperos e dores que não podemos imaginar. Vitórias e derrotas, sucesso, mas com certeza, grandes frustrações. Eventos envolvendo a esfera emocional e física. “Humilhação e honra, fartura e fome” são usados e permitidos por Deus como instrumentos eficazes no processo de maturação de qualquer um que decida tomar o jugo de Jesus. O cristianismo da Cruz é diametralmente oposto à religião que afaga o ego e nutre as deformações do coração do homem caído.

Queremos a glória sem a morte, a vitória sem a cruz, o amadurecimento sem cicatrizes! Tais ofertas vêm da religião, não do Deus da Bíblia. Ele nos chama para provarmos a sua fidelidade e sermos agraciados com a riqueza de sua presença. Por isso, a recompensa será para os vencedores e não para os religiosos.

Apocalipse 3:21 Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.

Se não acreditarmos de todo nosso coração na promessa que o texto acima nos traz, então nosso cristianismo é retórico, uma liturgia clichê encenada em nossas reuniões, mas totalmente distante do nosso coração. Vencer e assentar-se no trono com Cristo significa participar da sua vitória final! Isso deve nos trazer esperança.

Um longo caminho nos aguarda. Uma jornada com o Senhor do universo que se fez homem e se identificou conosco para não sermos mais como meninos. Ele nos convida a provarmos e vermos que ele é bom. Estamos dispostos a ingressar nessa jornada? Ou não entendemos a dimensão deste chamamento? Queremos conhecê-lo ou buscamos facilidades? A Bíblia nos apresenta uma galeria um tanto estranha de homens e mulheres que foram considerados vencedores do ponto de vista Divino. Nessa estranha galeria encontramos alguns que “deliberadamente preferiram a tortura à possibilidade de livramento”, outros venceram aceitando escárnio, açoites, sendo algemados e aprisionados injustamente. Em sua trajetória de estranhas vitórias, foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio de espadas; andaram longe de suas casas, da família e de sua nação. Andaram sem vestimentas adequadas, necessitados, afligidos, sofrendo todo tipo de maus tratos. Do ponto de vista humano, foram derrotados, mas Deus diz que eles venceram pela fé e o mundo não merece homens dessa envergadura! HB 11:38-39. Podemos dizer que tais homens e mulheres, em circunstâncias tão adversas, provaram e descobriram que o Senhor é bom, por isso enfrentaram tantos sofrimentos. Encerro lembrando-me de uma oração de alguém que, com certeza, provou da bondade dele e descobriu que nenhuma realização ou conquista humana se compara com a comunhão e amizade daquele que é a própria vida, riqueza e sabedoria. Nele, os verdadeiros filhos encontram paz e plena satisfação, pois, como desafiou o salmista, provaram e viram que o Senhor é bom!

Habacuque 3:17 Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, 18 todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. 19 O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente

Senhor, abra meus olhos!

“Então, parando Jesus, chamou-os e perguntou: Que quereis que eu vos faça? Responderam: Senhor, que se nos abram os olhos. Condoído, Jesus tocou-lhes os olhos, e imediatamente recuperaram a vista e o foram seguindo.” (Mateus 20:32-34).

Descobertas de um homem cego
Na escuridão da minha alma, minha mente não encontra descanso. Pergunto-me sobre o destino que me foi dado. Há tantas perguntas sem respostas, e dentro de mim cresce um desejo profundo de ver.

Não há cores em minha existência, apenas escuridão.
Ouço vozes, sinto o vento, o calor do sol, os pingos da chuva… mas não consigo ver.

Não sei como é o rosto de minha mãe, nem o semblante de meu pai. Tento imaginá-los por seus gestos, por suas vozes, mas tudo o que tenho são sombras construídas pela mente.

Na escuridão da minha vida, há mais pessoas que sentem pena de mim do que aquelas que me oferecem verdadeira amizade. Não tenho amigos. Não consigo ver.
Por quê? Essa pergunta me atormenta. O que fiz? Onde errei? Não encontro respostas. Há um Deus? E, se há, por que permitiu condição tão sofrível a um homem, se todos insistem em dizer que Ele é bom?

Não consigo ver… e estou condenado à mendicância. Dependo de favores constantes, torno-me um peso, e isso consome minha alma.

Oscilo entre a esperança e a revolta. Não consigo ver.
Ouço murmúrios de que Deus se fez homem e anda entre nós. E penso: como pode alguém ser tão cruel a ponto de criar tais histórias? Esquecidos somos. Deus não se lembra de nós. Que grande ilusão!

Mas, de repente, algo muda.
Boatos de um homem que percorre cidades fazendo o bem. Curando enfermos, restaurando vidas. Como é mesmo que o chamam? Jesus, o Nazareno.

Ah, se eu pudesse encontrá-lo… talvez me desse respostas. Talvez um milagre reacendesse em mim alguma esperança esquecida.
Mas quem olharia para mim? Um cego, pobre, maltrapilho…
Esperem… que barulho é esse?
Ouço vozes ao longe. Há alvoroço, agitação. Alguém diz que Ele está passando por aqui. Tão perto… tão próximo… tão real!
E, sem pensar, algo rompe dentro de mim.

— Senhor! Filho de Davi, tem compaixão de mim!

Grito com força, com choro… e com uma fé que eu nem sabia que ainda existia em mim.

Então, algo acontece.
Sinto Sua presença diante de mim. Forte, santa, indescritível. E, mesmo sem enxergar, tenho plena certeza: Ele me vê. Seus olhos repousam sobre mim.

E, naquele instante, algo mais profundo é revelado.

Percebo que, durante todos esses anos, não era apenas a escuridão dos meus olhos que me aprisionava. Havia uma cegueira ainda mais dolorosa: a da minha alma. O vazio do meu coração, a superficialidade das minhas conclusões, a dureza do meu interior.

Tu nunca estiveste ausente. Nunca foste indiferente.
Mas eu… eu não conseguia te ver.
E, agora, diante de Ti, compreendo: mais do que visão, eu precisava de luz.
Então ouço tua voz, tão simples e tão profunda: “Que queres que eu te faça?”
Tua pergunta, que antes pareceria óbvia, agora transborda sentido. Não se trata apenas de abrir meus olhos, mas de restaurar o meu ser.

Vieste para curar a cegueira da minha alma, para iluminar meu coração antes mesmo de me dar visão.
E, quebrantado, eu respondo:
— Senhor, que eu veja.
Cura minha visão… e ilumina o meu coração.
E então compreendo:
Ele veio para isso.
Para que os que não veem vejam… e para que aqueles que pensam ver reconheçam a sua própria cegueira. (João 9:39).

Eu não penso na morte.

Eu não penso na morte. Diante da tv não penso na morte.

Conversando com amigos e irmãos, não penso na morte.

Reunido com a família, a morte não existe.

Faço planos para o futuro e não penso na morte, mas ela está sempre perto.

Deito e acordo sem nela pensar, mas ela está sempre ali.

Tomo meu café da manhã, cumpro algumas tarefas e não penso na morte.

Leio um livro e viajo em seus temas sem pensar na morte.

Faço cobranças a mim mesmo e recrimino minhas limitações e desventuras por tanto querer e pouco conseguir,  mas não penso na morte.

Sonho e experimento desilusão. Brinco e me entristeço. Às vezes choro, outras, sou tomado por alegrias, mas não penso na morte. Mas, ela está sempre à espreita.

Planejo viagens com familiares e amigos. Admito que preciso tirar umas férias, mas não penso na morte.

Amanhã tenho visitas a fazer, algumas coisas pra resolver e depois quero ver um filme pra relaxar. Não penso na morte.

Hoje acordei animado, tomei meu café e conversei com a esposa. Tudo normal como sempre. Meu dia estava todo planejado, só não incluía a morte.

De repente, uma dor, um desconforto, um mal estar e tudo se apagou. Uma catástrofe, um acidente. A morte chegou sem ser convidada. Então descobri que ela era uma inquilina ignorada, sempre comigo, sabendo que tinha um encontro marcado naquela hora e lugar.

Meus amigos, meus familiares, meus planos, tudo ficou pra trás. As visitas, coisas em casa por fazer, palavras que não disse a quem amava, perdão que não pedi, e pessoas que não perdoei, tudo ficou pra trás. A morte chegou.

Eu não pensava na morte e ela sempre tão perto. Se eu soubesse que seria assim teria feito quase tudo de forma diferente. Agora acabou. Não consigo consertar o que ignorei e negligenciei. A morte chegou.

Obs:. Esse texto foi escrito no dia que Gal costa morreu. Uma breve reflexão sobre a fragilidade da vida.

Apegando-se aos marcos.

O mundo está cheio de marcas e marcos de tristeza. Cruzes, lápides, pedras. Monumentos que se revestem de significados para pessoas que enfrentaram perdas, na esperança de transcender, vencer sua mortalidade, exorcizar as tristezas, mantendo vivos entes amados, pessoas que não deixamos partir. Lugares, músicas que trazem à memória um saudosismo doído, fazendo apertar o peito com o abraço forte da saudade.

Mesmo que alguns carreguem a esperança eterna, não deixam de ser confrontados com perguntas sem respostas diante da ruptura tão definitiva da morte. Algumas vezes de forma tão inesperada e, em outras, até mesmo injustamente. Marta, ao deparar-se com a morte de seu irmão Lázaro, protesta para Jesus: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. João 11:21.

Quem está pronto para isto? As lágrimas surgem, no silêncio do olhar perdido no vazio, extravasando a dor que dilacera o peito, tentando achar consolo para o coração que se recusa a consolar-se.

Por que pessoas tão amadas têm que nos deixar? Quem pode suportar a ausência de um pai ou uma mãe que se foi? Um filho que jamais deveria preceder seus progenitores, um amigo ou um irmão. O amor da vida, a alma gêmea que desnorteia o coração de quem ama, se vai impiedosamente sem explicação! 

Diante desse inquilino indesejado, hospedado em cada um de nós desde o nascimento, todos tombaremos sem chances de resistir, deixando no peito dos que nos amam, um lugar vazio que jamais será preenchido plenamente. O que nos resta são marcos, que nos darão a sensação de que, alguém que partiu está por perto, em nossas melhores lembranças, amenizando a dor da ausência que nunca será curada totalmente.

Sejam jarros de flores sobre pedras frias e indiferentes, seja um livro, um ambiente, um lugar, uma fotografia. O cheiro marcante de um perfume ou aquela música que nos faz chorar com doces recordações dos que já não estão mais conosco, os marcos nos mantêm conectados com os que nos deixaram e, de certo modo, eles os mantêm vivos em nossas melhores recordações.

João 11:25 Então Jesus declarou: — Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. 26 E todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente. Você crê nisso?