O Coração dos Que Ensinam

2Coríntios 4:12 De modo que a morte está agindo em nós, e a vida está agindo em vocês. NTLH.

Todo aquele que foi chamado ao ministério específico para pregar e ensinar o evangelho, deve trazer consigo uma consciência de sacrifício e entrega por aqueles a quem ensinam. Pastores que não lidam bem com o sofrimento prejudicam a si e ao rebanho. Se o pregador busca realização pessoal no exercício do ministério, seduzido pelo ego, pode não entender o quanto dele é exigido para que outros possam conhecer a Cristo mais profundamente, sendo tentado a desejar o reconhecimento dos homens, caindo assim nas armadilhas do próprio coração. O apóstolo criticou pregadores que pregavam a Cristo com motivações completamente erradas. Fl 1:15-17. 

Ele entendia, que os riscos que corria e os conflitos que vivia pregando e ensinando o evangelho, produzia vida em outros, embora, as circunstâncias em que vivia o conduzisse sempre para riscos de morte e perigos sem fim. 2Co 11:26-29. No versículo 10, ele revela que as aflições decorrentes da pregação do evangelho exigiam mortificações e renúncias, para que a vida de Jesus se manifestasse nele. “levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo.” 2Co 4:10.

Fossem resistências dentro da igreja, ou perseguições que vinham de fora, em ambas as situações ele tinha que mortificar suas vontades e reações para cumprir o seu chamado, entendendo

que no processo de mortificação pessoal, outros experimentaram vidas transformadas, beneficiando-se dos sacrifícios dos pregadores do evangelho. “Em nós opera a morte, em vós, a vida!” 

Em Marcos 10:45, Jesus disse que veio para servir e dar a vida em resgate de muitos. Um sentimento profundo de entrega e doação, compreendendo a dimensão da vocação recebida. Sem essa compreensão, o serviço ministerial torna-se perigoso devido às necessidades emocionais existentes em nosso coração.

Bons homens de Deus sucumbiram ao desejo de reconhecimento, aplausos e até mesmo a necessidade de gratidão daqueles a quem serviram. Em 1Tes 2:8 Paulo revela o desejo do seu coração, que era dar mais que sua pregação. Ele queria dar a própria vida. Ao analisarmos as colocações do apóstolo acerca de seu serviço, podemos fazer correções nos rumos do nosso coração ao cooperarmos na obra de Deus. 

Em 2Co 13:9, ele afirma se alegrar quando os irmãos estão bem, mesmo que ele se sinta fraco, pois todo aquele sofrimento era por amor a eles, ainda que lhe causasse muito desconforto. Quantas vezes murmuramos devido à resposta lenta de irmãos que cuidamos, do descaso de alguns, do descompromisso de outros, do desdém de poucos, e é aqui que nossas motivações são expostas; amor a Deus e ao rebanho, ou amor ao som da nossa própria voz e à busca pelo conforto pessoal?

Deus procura homens que se deixam moldar para serem úteis no serviço em sua casa, e o caminho a ser trilhado é o de dores, frustrações e decepções, todavia, esse é um processo necessário aos que foram chamados para poderem amadurecer, expressando os sentimentos do coração de Deus e conduzindo o rebanho à maturidade em Cristo.

1 Tessalonicenses 2:8 assim, querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito amados de nós.

Pastores Cuidadosos

Lucas 12:42 O Senhor respondeu: Qual é o administrador fiel e prudente, que o senhor encarregará dos seus servos para lhes dar alimento no tempo certo? 43 Bem-aventurado o servo a quem seu senhor, quando vier, encontrar fazendo assim.

A administração fiel e prudente é o que Cristo espera daqueles que ele chamou para cuidar do seu rebanho. Jesus nos mostra qual a sua expectativa ao nos dar tão sublime tarefa de sermos mordomos em sua casa, tendo a responsabilidade de alimentar os seus filhinhos. Ele enfatiza que, feliz será esse servo, quando ele voltar o encontrar empenhado e diligente no cumprimento da vocação que lhe foi dada. O verdadeiro pastoreio não é conhecido nas reuniões da igreja, mas no amor e cuidado demonstrado fora delas. Nas reuniões pregamos e ensinamos, porém, no dia a dia, oferecemos nossas vidas, nos doando e nos sacrificando por aqueles pelos quais, Cristo morreu.

Jesus, em sua oração sacerdotal, dá ao pai uma satisfação do seu serviço, dizendo: “enquanto eu estava com eles, eu os guardei e os preservei no teu nome que me deste. Nenhum deles se perdeu…” (Jo 17:12). Ele afirma que guardou e preservou as ovelhas que o pai confiou a ele, esforçando-se para que nenhuma ovelha se perdesse, nos mostrando que pastorear é proteger, é zelar pelo rebanho do pai. No capítulo dez do evangelho de João Lemos, que, como o bom pastor, Jesus deu a vida pelas ovelhas. (Jo 10:14-15). 

Como homens encarregados dessa tarefa, jamais podemos nos esquecer da grandeza desse chamado a sublimidade dessa vocação, e a grande responsabilidade que pesa sobre nós. Breve ele virá e sentará com seus obreiros para recompensar a cada um segundo o seu trabalho. Que o Senhor da obra renove nossas forças e fortaleça nosso coração para não deixarmos nenhuma de suas ovelhas para trás, ou desnutrida, ou ignorada por não andar nos passos das demais. Ele disse a Pedro que a maior expressão de amor que podemos fazer a ele é cuidar dos seus cordeirinhos. Sejamos diligentes no serviço a nós confiado.

João 21:15 Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeirinhos.

O Zelo que Mata. Uma Advertência de Jesus à Liderança Religiosa

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas, porque percorrem terra e mar para fazer um convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês.” (Mateus 23:15)

Uma das características centrais dos discípulos de Cristo é o zelo.

Zelo é forte disposição, diligência e empenho aplicado na realização de algo.

O próprio Jesus nos apresenta o padrão desse zelo. Ele declarou que a sua comida era fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra (João 4:34). Séculos antes, Isaías profetizou que o Messias estaria vestido de zelo (Isaías 59:17). Em Cristo vemos o modelo perfeito de entrega, serviço humilde e busca contínua pela glória do Pai. Ele é a nossa referência absoluta.

Entretanto, a Escritura também nos ensina que nem todo zelo é saudável. Existe um zelo religioso que se desvirtua, que se desconecta das verdades fundamentais do evangelho e passa a produzir frutos perigosos.

É exatamente esse tipo de zelo que Jesus denuncia em Mateus 23. Ele fala de homens deformados, mas intensamente ativos; empenhados, mas espiritualmente corrompidos; trabalhadores incansáveis, porém dissociados da verdade. São capazes de atravessar terra e mar para fazer prosélitos, mas, ao fazê-lo, não conduzem pessoas a Deus, conduzem pessoas a uma versão distorcida da fé.

Aqui somos confrontados com uma pergunta incômoda:

Quantas vezes a pregação do evangelho é usada para a glória dos homens e não para a glória de Deus?

Ao olharmos para a história recente da igreja, percebemos ministérios que começaram bem e se perderam no caminho. Alguns sucumbiram ao orgulho, outros às carências emocionais, outros ao ressentimento não tratado, outros ainda a pecados ocultos. Mesmo assim, continuam levantando a bandeira do evangelho, arrebanhando homens e mulheres, enquanto semeiam em seus corações doutrinas falsas e uma espiritualidade adoecida.

O apóstolo Paulo descreve esse tipo de religiosidade de forma contundente:

“Tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes.” (2 Timóteo 3:5)

O grande perigo é que comportamentos carnais e motivações egoístas se misturam facilmente ao ministério quando o coração não é vigiado. O serviço cristão passa a ser um meio de alcançar objetivos pessoais, afirmação de identidade e realização de ambições internas.

O rei Saul é um exemplo trágico desse processo. Mesmo reconhecendo seu pecado, preferiu preservar sua honra diante dos homens a se humilhar diante de Deus (1 Samuel 15:24–30). O amor à posição tornou-se maior que o amor ao Senhor. Para um homem cheio de si, a glória humana sempre pesa mais do que a glória de Deus.

O rei Uzias segue a mesma lógica. Foi um líder forte, realizador, usado poderosamente por Deus (2 Crônicas 26:1–15). Porém, em determinado momento, passou a acreditar que sua força vinha de si mesmo. Deixou de depender do Senhor. O resultado foi humilhação, disciplina e uma vida encerrada na lepra (2 Crônicas 26:16–21).

Paulo resume essa verdade de maneira profunda:

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Coríntios 4:7)

O poder que carregamos é grande. O vaso, porém, é frágil. E Deus assim o determinou para que jamais confundamos instrumento com fonte.

Quando homens se apegam à posição, a liderança deixa de ser serviço e passa a ser conquista pessoal. Algo que precisa ser preservado a qualquer custo. A partir daí, tornam-se instrumentos de deformação espiritual daqueles que os seguem.

Esses líderes não lidam bem com críticas honestas. Não aceitam o contraditório. Diante de discordâncias, atacam o mensageiro em vez de examinar a mensagem. A verdade passa a ser tratada como um privilégio exclusivo deles, e os outros devem apenas se submeter.

O texto de Mateus sugere que esses homens são carismáticos, influentes e altamente persuasivos. Possuem grande força de vontade e enorme capacidade de convencimento. Por isso percorrem terra e mar. Não desistem facilmente, porque se veem como especiais.

Valorizam comportamentos padronizados, disseminam suas visões de mundo, de igreja e de ministério com entusiasmo contagiante. Aos poucos, formam seguidores que já não pensam por si mesmos, mas passam a replicar os ideais do líder, mesmo quando esses ideais não se alinham com as Escrituras.

Nesse ponto, os discípulos deixam de ser discípulos de Cristo e passam a ser discípulos de homens.

Esse é um terreno delicado. Existe um risco real de olharmos para fora e identificarmos esses desvios apenas nos outros, sem perceber que os mesmos perigos rondam o nosso próprio coração.

O orgulho nos torna intratáveis. Cria resistência à correção. Dificulta o arrependimento. Paulo reconheceu isso em si mesmo e afirmou que recebeu um espinho na carne justamente para frear suas inclinações orgulhosas (2 Coríntios 12:7).

Por fim, esses homens se tornam perigosos porque não ouvem ninguém. Não aceitam aconselhamento. Não se submetem. Consideram-se iluminados, acima de qualquer confronto ou correção.

Líderes autossuficientes caminham para a ruína.

Deus, em sua graça, nos oferece proteção por meio do companheirismo, da prestação de contas e da pluralidade ministerial. Esses elementos funcionam como freios contra as armadilhas do coração. Protegem o pastor e protegem a igreja.

Que o Senhor nos conceda graça para caminharmos com humildade nessa estrada sinuosa que é o serviço pastoral.

 

Livra-me, Senhor!

Livra-me Senhor da mediocridade de não te ouvir nem te enxergar. Livra-me do desejo por coisas e da busca por inutilidades. Livra-me de me desgastar física e emocionalmente com aquilo que não posso mudar. Não me deixes ser consumido pela obsessão de uma vida plena aqui nessa terra, pois certamente isso me levará a pecar contra ti. Livra-me, eu rogo, dos pensamentos superficiais acerca de ti, pois não tenho como te conceituar. Todos que o fizeram, erraram. Preciso entender que só posso te conhecer através da revelação que fizestes de ti mesmo. 
Guarda meu coração do engano do saber, do compreender, do apoiar-se no próprio entendimento. Os que nele vivem jamais entenderão a verdadeira sabedoria e o mundo está cheio desses!
Oh, meu pai, livra-me de cansar os que me ouvem com discursos superficiais, de me portar diante deles como quem sabe, e perder assim a capacidade de aprender de ti mediante um relacionamento simples. Guarda meus sentimentos da “síndrome do iluminado” para não afadigar meus irmãos.
Ensina-me a difícil tarefa de falar pouco, pois sei que no muito falar o ego acha o seu lugar.
Livra-me também do silêncio covarde, omisso, tímido que não defende o teu nome e nem proclama tua doutrina.
Livra-me de achar que os outros precisam mudar e assim me esquecer que preciso ser transformado por ti.
Livra-me do caminho perigoso das necessidades da alma para que eu não use teu nome, tua obra, ou o ministério para satisfazê-las.
Não permitas que eu despreze a tua noiva, a igreja, devido a suas imperfeições. Muitos já sucumbiram nesse caminho.
Não me deixes confundir conhecimento com amadurecimento e, por fim, Senhor, não permitas que eu queira mais o teu poder do que tua pessoa. Mais as manifestações que o conhecimento de quem tu és. Ensina-me a escolher a melhor parte, buscando sempre a intimidade contigo. Amém

Consolados para Consolar

Uma reflexão pastoral sobre sofrimento, maturidade e serviço

2 Coríntios 1:3–4

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.”

Tudo o que o Senhor faz e permite que passemos no serviço a Ele tem como objetivo nos amadurecer e nos conduzir ao crescimento. Tornar-nos semelhantes a Jesus é a grande obra que Deus está realizando em nós. Ele deseja que aprendamos a sua humildade, sua paciência, sua capacidade de perdoar e de amar os outros a ponto de estarmos dispostos a dar a própria vida.

Cada ferida cicatrizada, e até mesmo aquelas que ainda permanecem abertas faz parte de um processo muito maior que, ao final, nos aprovará ou reprovará, pois Deus julga as motivações do nosso coração, e não simplesmente o quanto trabalhamos para Ele.

Paulo reconhece que o Deus de toda consolação permite tristezas e frustrações para que adquiramos a capacidade de socorrer os que sofrem. Há perigos em uma sensibilidade desgovernada: homens sensíveis demais tendem a expressar mais a própria personalidade do que o caráter de Cristo. Com facilidade confundem sua dor e sua indignação com a do próprio Deus e acabam intimidando o rebanho e os companheiros de ministério. Muitas vezes não percebem que o Senhor está justamente os aperfeiçoando por meio de sofrimentos, frustrações e decepções.

A fala do apóstolo revela a percepção que ele adquiriu acerca dos processos pessoais e íntimos que o Senhor opera na vida dos obreiros da casa de Deus. Paulo compreendeu que Deus estava trabalhando em seu interior, removendo durezas do coração e ajustando sensibilidades exageradas, para que ele se tornasse uma bênção mais madura em sua obra.

As consolações do Senhor não nos são dadas para que nos tornemos mimados, endurecidos ou indiferentes, como somos tentados a ficar diante das dores e feridas causadas por irmãos que cuidamos, por injustiças sofridas ou por situações difíceis com companheiros de ministério que nos magoaram. Paulo é claro: Deus nos consola para que possamos consolar outros.

Há um ditado que diz que, quando o mar está calmo, qualquer um pode segurar o leme; mas as ondas bravias exigem homens experimentados para suportar a dureza da tempestade. Líderes amadurecidos prosseguem apesar das cicatrizes. Caminham cheios de amor, desejosos de cumprir o chamado e agradar ao seu Senhor.

Sem dúvida, é maravilhoso contemplar o que Deus faz por meio de nós na vida de muitos irmãos. Contudo, não podemos deixar de discernir o que Ele está fazendo em nós, para que, a cada dia, venhamos a refletir mais fielmente quem Ele é.

Que, assim como o apóstolo, possamos, em meio aos sofrimentos, transbordar em amor e serviço, frutos diretos da obra de Deus em nosso interior.

2 Coríntios 2:4

“Porque lhes escrevi no meio de muitos sofrimentos e angústia de coração, com muitas lágrimas, não para que vocês ficassem tristes, mas para que soubessem do amor que tenho por vocês.”

 

Pastores sob o cuidado de Deus.

2 Timóteo 4:19 Dê saudações a Prisca e Áquila, e à casa de Onesíforo.

Deus, em sua misericórdia, nos cerca de pessoas fantásticas para nos ajudar na árdua tarefa da pregação do seu reino. É preciso dar a deferência a homens e casais que ele levantou para nos sustentar e animar em momentos que não conseguiríamos passar sozinhos. Pessoas que permaneceram ao nosso lado mesmo conhecendo cada vez mais nossas fraquezas e debilidades, mas, com resiliência, algumas vezes sem perceberem, cumpriram a missão de nos sustentar e amparar quando nossas forças faltaram. 

Olho para trás e posso ver claramente a quantidade de boas pessoas que o Senhor, em sua misericórdia, colocou ao meu lado para me servir de alento em momentos em que o desânimo se abateu sobre mim. Alguns tiveram um papel temporário, mas igualmente importante, outros permanecem perto até hoje como um mimo de Deus para nós que nem padecemos tanto como Paulo.

Paulo não podia esquecer de Timóteo, a quem endereçou essa última carta, filho e companheiro de muitas batalhas. Esteve perto do apóstolo em momentos muito difíceis. 2Tm 3:10-11. Lembranças oportunas! Lembrou-se de Onesíforo, que o procurou de prisão em prisão em Roma até encontrá-lo apenas para servir e trazer um pouco mais de conforto em seu encarceramento. 2Tm 1:16-18. Do casal amado e fiel, Priscila e Áquila, que os encontrou pela primeira vez em Corinto depois que foram expulsos de Roma, At 18:18-19,26, estavam em Éfeso quando 1Corintios foi escrita, 1Co 16:19 e em Roma quando a carta aos romanos foi escrita, Rm 16:3. Pessoas especiais, presentes em momentos tão específicos e cruciais. Ao lermos essa pequena saudação do apóstolo no fim de sua jornada, não podemos deixar de perceber como essas lembranças permeavam seus pensamentos finais e servem para nos ensinar a valorizar homens e mulheres preciosas que o Senhor colocou em nosso caminho para nos socorrer.

Que jamais esqueçamos do grande cuidado de Deus a todos que ele chamou ao ministério por meio de pessoas simples e amáveis que doaram do seu tempo, família e amizade para tornar nossos ministérios menos dolorosos. E, em momento algum, deixemos de valorizar, honrar e reconhecer esses que se sacrificaram para nos servir. Ao nosso amado, Jesus, seja a honra e a glória para todo sempre por sua singela forma de nos socorrer. 

Pastoreio e fidelidade

1 Samuel 18:25b…Porque Saul tentava fazer com que Davi fosse morto pelos filisteus.

Não há nada mais destruidor num grupo de liderança na obra de Deus que comportamentos desleais que geram disputas e enfraquecem os ministérios estabelecidos pelo Senhor. Esses comportamentos às vezes revelam-se em hostilidades abertas ou em atitudes veladas que visam enfraquecer a posição do outro. São pequenas falas, críticas sutis na ausência do outro, e até mesmo exposição das fraquezas com intuito de descredibilizar. Na verdade, tais comportamentos mostram o quanto somos imaturos, carnais e estamos distantes do manso e humilde jesus e acabamos não percebendo as deformações do nosso coração ou, na maioria das vezes, não queremos encará-las de frente. Se há um lugar perigoso para trabalhar, no que tange às inclinações ruins do coração, esse lugar é no ministério, pois os que ali se encontram, correm o risco de ensinar aos outros, mas não perceberem sua necessidade de transformação. Estão sempre conduzindo, corrigindo e profetizando e às vezes não notam o quanto Deus está tentando fazer mudanças profundas em seus corações. 

Já ouvi dizer que é mais fácil transformar um discípulo em um pastor que um pastor num discípulo, talvez seja pelo fato de serem mais apegados à posição e não se deixarem tratar com facilidade, tornando-se cegos para as suas necessidades mais profundas. Estão dispostos a corrigirem a outros, mas não aceitam a correção.  Será por essa razão que vemos tantos estragos em famílias de pastores? 

O texto que lemos acima nos mostra um rei louco que se sentia ameaçado em sua posição pelo crescimento de outro e, gradativamente, adentrou o pântano da inveja, amargura e sabotagem para com alguém que era leal a ele.

A atitude de Saul para com Davi em tramar o mal, armar emboscadas e planejar sua morte é bem sugestiva para aqueles que compartilham o ministério na casa de Deus. O final do texto acima diz que Saul tramava para que Davi fosse morto pelas mãos dos filisteus. 

Essas intenções subterrâneas que às vezes tomam o nosso coração em relação ao bom serviço do outro nos afastam do caminho da cruz. Jesus em um de  seus discursos aos judeus lhes adverte: 

João 5:44 Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?

O caminho da verdadeira paz no serviço cristão passa por um coração despretensioso e quebrantado. Buscar a honra que vem só de Deus é um caminho seguro que nos livra de sermos ameaçadores aos companheiros de ministério. A grande prova do nosso crescimento em Cristo reside no fato de nos alegrarmos com o crescimento do outro, sabendo que ele distribui sua multiforme graça visando o bem da igreja e não a promoção de homens ou ministérios. Rm 12:3.

Finalizo lembrando que, assim como Saul, alguns homens continuam no ministério realizando suas tarefas, mas a graça de Deus já não está mais com eles pelo simples fato de amarem mais a glória dos homens que a de Deus. Busquemos a edificação do corpo de Cristo honrando e valorizando os companheiros que ele colocou ao nosso lado para suprir as debilidades ministeriais que temos, pois nenhum ministério tem tudo em si. Tudo é dele, por ele e para ele. Amém!  

João 3:29 Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido. 30 É necessário que ele cresça e que eu diminua.

Aprovação ou reprovação, em qual caminho estou?


1 Coríntios 9:27 Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado.

Entender nossa necessidade de fugir dos embaraços do coração salva nossas vidas e ministério! Os que por Deus foram chamados à sublime tarefa de cuidar do rebanho devem entender que guardar o coração em primeiro lugar é mais importante que prestar um bom serviço. Podemos prestar um bom serviço aos irmãos e ainda assim não sermos aprovados por Deus. Mostrar o caminho para muitos e errarmos o mesmo.
Devemos ter cuidado com mágoas e com o poder da decepção. Esse último já encarcerou a alma de bons homens de Deus! Tais sentimentos impedem o fluir do Espírito e nos levam a ter expectativas erradas, achando que precisamos de reconhecimento. Isso destrói o ânimo.
Cuidado com a supervalorização do seu bem-estar emocional. As cicatrizes atestam que estamos seguindo os passos do nosso mestre. Muitas vezes não percebemos que, através dos sofrimentos, frustração e decepções, o Senhor está nos depurando para não sermos nocivos ao rebanho. A idolatria da felicidade mantém muitos líderes na infantilidade emocional. Busquemos sempre o nosso conforto na comunhão e intimidade com o nosso amado Jesus, pois ele é a força que não nos deixa recuar da nossa vocação.
Como pastores na casa de Deus, estejamos atentos ao foro íntimo para que, ao pregarmos a outros, jamais sejamos reprovados.

Cavernas, cavernas, cavernas…

1 Reis 19:8. Levantou-se, pois, comeu e bebeu; e, com a força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.9. Ali, entrou numa caverna, onde passou a noite; e eis que lhe veio a palavra do Senhor e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?

“Todo Elias tem sua caverna, todo Jeremias tem sua cisterna e todo Paulo tem seu espinho na carne.

Mas, assim como foi no passado, nenhuma caverna, cisterna ou espinho na carne é capaz de deter os Elias, os Jeremias e os Paulos de nossa geração.” (Felipe Guilherme Ferreira da Silva.)

Todos nós que amamos ao Senhor e sua obra, quase sempre somos tentados a encontrar uma caverna para nos esconder, como fez Elias. Mesmo aqueles que já foram muitas vezes usados por Deus, corrigindo, animando e exortando a muitos. Esses, confrontados por suas fraquezas, pecados e debilidades, muitas vezes mergulham nas mais densas trevas espirituais e emocionais, pedem a morte tal qual Jonas e Elias pediram. Sentem-se só, incapazes, e por que não dizer, amargurados e até injustiçados por Deus. Por duas vezes, Elias lembra a Deus a sua fidelidade, “tenho sido zeloso pelo senhor, Deus dos exércitos”, vs 10,14, como se perguntasse: valeu a pena?

 Em nossas cavernas, concluímos que não adianta a entrega, renúncias e toda dor que aflige o coração daqueles que foram chamados para falar da parte de Deus com zelo e paixão. Encontramos muitas vezes mais angústia e sofrimento. Seria essa a recompensa?

Talvez, a grande verdade é que, quando entramos em nossas cavernas, tentamos fugir de Deus, do seu chamado, da vocação, essa coisa mística que nos machuca e nos atrai, nos fere e nos enche de realização. Quem sabe essas cavernas nos escondam de seus olhos cativantes, de sua voz que não conseguimos resistir e por isso nos escondemos como Elias?

Elias caminhou por quarenta dias e quarenta noites em desespero até Horebe, (1Re 19:8), ali achou uma boa caverna e escondeu-se. Quarenta dias e quarenta noites. A Bíblia não fala de paradas, nem de descanso, apenas que caminhou todo esse tempo, conferindo intensidade ao drama de um coração angustiado, revelando o conflito que toma o coração daqueles que foram marcados num encontro com Deus. Quantas vezes tentamos fugir dessa vocação? Pedro até tentou voltar à pesca de peixes, mas o mestre chega na praia e faz ressoar a sua voz como quem diz: “eu não desisto de você”! Tu me amas? O texto nos diz que Jesus chegou na praia ao clarear da madrugada, Jo 21:4, e não há melhor hora para o vocacionado olhar nos olhos de seu mestre e entregar-se totalmente ao seu serviço.

Para quem iremos? Onde nos ocultaremos do teu olhar? Ou melhor, como fugiremos do seu amor, do seu chamado, da sua vocação? Horebe é o monte de Deus e é onde ele nos conduz para falar conosco. No monte de Deus, somos confrontados por seu amor, visto que não buscas nossos talentos e sim a nós mesmos. Deus nos permite fugir para as nossas cavernas e lá revela seu amor e graça a homens frágeis como nós. Embora não precise nem de mim, nem de você, em seu amor, nos escolhe para partilhar os anseios do seu coração.

Que fazes aqui, Elias? Foi a pergunta do Senhor a seu servo. 1Re 19:10. Ele vai às nossas cavernas para falar conosco, entra em nossos esconderijos para lembrar da nossa vocação. Sabe que somos frágeis e por isso nos oferece a sua força. Cativa-nos com tão sublime chamado de tal maneira que, no fundo o que mais desejamos é dar a nossa vida por ele.

Ele nos ensina a amá-lo, amar as ovelhas e a ter compaixão de um mundo perdido. Assim ele fez com Jonas, ensinando-o o que é a sua grande misericórdia, amor e graça para homens que, como disse o Senhor, “não sabem discernir a mão direita da esquerda” Jn 4:11.

Talvez, ainda entraremos em muitas cavernas existenciais, mas com certeza, ele virá ao nosso encontro com sua doce voz dizendo que foi a mim, que foi a você que ele chamou e deu uma missão, uma vocação.

 A caverna não pode transformar-se em morada para o que foi chamado. É lugar de reflexão, arrependimento e rendição ao seu chamado. A única forma de deixar a caverna é quebrantado e, na verdade, ninguém sai de lá mais forte, mas, com certeza, cheio de convicção de que o Senhor estará presente concedendo da sua graça, poder e unção para cumprirmos nosso ministério.

Filipenses 3:13. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,14. prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.15. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá.16. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos.

A Armadilha do Ser e Fazer

    O desejo pelo reconhecimento humano é responsável pelo fracasso pessoal de muitos homens. Este sentimento leva-os a usar até mesmo o que é de Deus como trampolim para sua própria glória e exaltação. As vezes por trás de boas ações escondem-se sentimentos doentios, ambiciosos, e não tão puros quanto parecem. O desejo pela glória humana desvirtua e deforma o caráter do filho de Deus, levando tal homem a buscar a realização a qualquer custo.
     Isto acarreta uma série de sofrimentos, pois o desejo de Ser reconhecido e Fazer uma grande obra torna-se um algoz, um senhor impiedoso que nunca se satisfaz, aí então, deixamos de oferecer o que dEle vem, para oferecer o que vem de nós mesmos, o que é humano, tornando nosso serviço inaceitável diante de Deus. Jesus disse que não recebia glória que vem de homens, pois a glória ele transmitia ao pai, e como homem sempre rejeitou a autoglorificação, Jo. 7:18 e 8:50. Paulo disse que não é aprovado aquele que a si mesmo se recomenda mais aquele a quem o Senhor recomenda II Cor. 10:18. É preciso entender que se o nosso serviço deve ser reconhecido ou não, será por causa da soberania de Deus em honrar a quem ele quiser e recomendar a quem ele quiser. Para o homem sarado de alma isso é completamente irrelevante. Como servos, devemos pedir ao pai que nos dê intenções puras em nosso serviço para que sejamos consumidos apenas pelo desejo de realizar a vontade daquele que nos enviou e completar a sua obra, e não por nossas ambições pessoais.
     O desejo imoderado de Ser e Fazer traz algumas conseqüências letais para o homem:
I)          Leva-os a pensar que podem mudar as pessoas por seus esforços e conhecimentos.
     Há uma grande diferença no fruto que colhemos quando o Senhor faz através de nós do que quando fazemos por nós mesmos. O resultado do primeiro é duradouro e reverte-se em benção para a igreja de Cristo, ao passo que o do segundo logo se estagna. Quando achamos que a nossa persuasão e intelectualismo bíblico podem mudar a vida de qualquer discípulo, abandonamos o primeiro amor, a dependência e pecamos contra o pai. O resultado de tudo isso é cansaço, frustração, decepção e atraso na formação de discípulos. Quando Cristo disse, “sem mim nada podeis fazer,” Ele não estava filosofando, mas deixando clara a natureza de sua participação no processo de desenvolvimento da sua igreja. Tudo é dEle por Ele e para Ele. Paulo disse: Eu plantei Apolo regou mas Deus deu o crescimento  I Cor. 3:6. É preciso esta consciência, que o crescimento dos discípulos vem de Deus.
     Pensar que podemos mudar pessoas, amadurecê-las ou dinamizar o andamento da igreja de Cristo revela o quanto somos independentes no serviço e o quanto confiamos em nossa estrutura pessoal. Será que podemos levar os que não crescem a serem diferentes? Os imaturos a maturidade, os complicados a simplicidade, os que não enxergam a verem com clareza? Não podemos esquecer o que Ele nos disse: “Sem mim nada podeis fazer”.
II)       preocupam-se tanto com seus objetivos pessoais que abandonam o senhor da obra.
     O mundo interior dos que caem na armadilha do “ser” e “fazer” torna-se um constante conflito e guerra, não conseguem ter paz, suas ambições o perturbam. Tais homens não conseguem relaxar, estão em constante atividade. Não gozam da liberdade dos que já morreram e portanto não precisam provar nada para ninguém. Quando lamentam suas misérias choram-nas de si para si mesmos, seu choro não é quebrantamento aos pés do senhor, mas um lamento por aquilo que ainda não conseguiram. Sua paixão não é mais por Cristo, mas por si mesmos e pelos seus projetos. Eles não são prisioneiros de Cristo, mas do próprio egoísmo. Cristo deixa de ser senhor, amigo, pai, irmão para se tornar seu trampolim para o sucesso pessoal. Abandonou o senhor da obra, virou-lhe as costas, perdeu o alvo de vista. Jesus disse:
João 12:24
24 – Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.
Em Isaías 53:11a diz: “Ele (Jesus) verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; (revista e atualizada). Ele nunca se gloriou como homem a não ser em ver milhares de vidas salvas pelo penoso trabalho de sua obra na cruz. Gloriava-se em homens regenerados e transformados. Ele não queria o veneno de satanás da auto-glorificação, nem ambicionou a glória humana.
João 5:41-44
41 – Eu não recebo glória dos homens;
44 – Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?
João 7:18
18 – Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça.
     Todos que buscam reconhecimento humano caem na armadilha do “ser” e “fazer” para sua própria glória e não para glória de Deus. Paulo, o apóstolo, afirmava gloriar-se apenas na cruz de Cristo pela qual ele estava crucificado para o mundo e o mundo para ele.
Gálatas 6:14
14 – Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
     As almas mais felizes e bem realizadas são aquelas que através da cruz foram livres do desejo de ser e fazer, e por isso gozam da liberdade dos que já morreram com Cristo e vivem para fazer o bem e sacrificarem-se em prol dos outros.
Marcos 10:45
45 – Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
Cláudio.
 VAIDADE OU HUMILDADE?
     Quantas pessoas há que perecem por causa da vaidade do conhecimento mundano e o pouco cuidado em servir a Deus. Tornaram-se vãs em seus próprios conceitos porque preferiram serem grandes, em vez de humildes. É verdadeiramente grande aquele que é piedoso. É verdadeiramente grande aquele que é pequeno aos seus próprios olhos e não faz nada buscando honra para si mesmo. É verdadeiramente sábio aquele que considera todas as coisas terrenas, como tolice a fim de ganhar a cristo.
Thomas de Kempis.