Só Uma Coisa Te Falta
“E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.” (Marcos 10:21-22).
Talvez você seja alguém que tem ouvido um chamado direto da parte do Senhor para uma entrega mais profunda. Como aquele jovem rico, você diz amar as coisas de Deus, mas há algo em sua vida de que não consegue, ou não quer, abrir mão porque considera precioso demais para perder.
Você ouve o chamado do Senhor, mas o custo o assusta. Há áreas da vida que deseja manter sob seu próprio controle, prioridades que nunca permitem que a entrega seja completa. Entretanto, Jesus não nos chama para uma entrega parcial. Ele nos chama para segui-lo com o coração inteiro.
“Só uma coisa te falta.”
O Evangelho de Lucas registra outro encontro que nos ajuda a compreender essa tensão. Jesus disse a um homem: “Segue-me!”. Ele, porém, respondeu: “Senhor, permite-me ir primeiramente sepultar meu pai” (Lc 9:59). A resposta de Jesus foi confrontadora: “Deixa os mortos sepultarem os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e proclama o Reino de Deus” (Lc 9:60).
Não precisamos concluir que aquilo que esse homem desejava fazer fosse, em si mesmo, errado. O confronto está naquilo que deveria vir primeiro. Diante do chamado de Cristo, ele apresentou algo que desejava realizar antes de segui-lo.
É justamente aí que essa história se aproxima tanto de nós.
Temos família para cuidar, projetos que desejamos realizar, conquistas que ainda queremos alcançar, relacionamentos, sonhos e planos para o futuro. Muitas dessas coisas são legítimas. O problema começa quando aquilo que é legítimo assume em nosso coração um lugar que pertence somente ao Senhor.
Foi exatamente nesse ponto que Jesus confrontou o jovem rico.
Aquele homem parecia possuir muitas virtudes. Conhecia os mandamentos e afirmava observá-los desde a juventude. Mas Jesus tocou exatamente no lugar em que seu coração ainda não estava rendido. O problema não estava simplesmente em possuir muitos bens, mas no lugar que aqueles bens ocupavam em sua vida. Ele possuía muitas propriedades, mas, de alguma maneira, suas propriedades também o possuíam.
Talvez esse seja um dos grandes conflitos da nossa caminhada com Deus: descobrir o que acontece quando o chamado de Cristo alcança justamente aquilo que não queremos entregar.
Alguns foram confrontados com isso recentemente. Outros talvez estejam há anos silenciando essa voz no coração. Encontramos justificativas: preciso cuidar dos meus pais; amo demais essa pessoa; tenho planos para meu futuro; trabalhei muito para conquistar isso; não quero correr o risco de enfrentar renúncias e perdas grandes demais para mim.
As circunstâncias variam, mas a pergunta permanece.
“Só uma coisa te falta.”
É possível seguir uma religiosidade conveniente, cumprir determinadas obrigações, frequentar a igreja, servir em algumas áreas e entregar ao Senhor muitas partes da vida, enquanto preservamos cuidadosamente aquela que não queremos que Ele toque.
Mas não podemos seguir verdadeiramente a Cristo sem a disposição de colocar tudo aos seus pés. Sonhos, bens, relacionamentos, projetos, conforto e planos para o futuro são dádivas que podem ser recebidas com gratidão, mas nenhuma delas pode ocupar em nosso coração o lugar que pertence ao Senhor.
Talvez não sejam muitas coisas que estejam impedindo uma entrega mais profunda.
Talvez seja apenas uma.
Talvez você tenha ouvido o chamado para servir mais, priorizar o Reino de Deus, abrir sua casa, repartir aquilo que possui, proclamar o evangelho, abandonar algo que tem ocupado indevidamente seu coração ou simplesmente viver menos para si mesmo e mais para o Senhor. Mas continua dividido entre aquilo que deseja preservar e aquilo para o qual Cristo o chama.
O chamado permanece: “Vem e segue-me”.
Há, porém, um detalhe precioso na narrativa de Marcos que não deveria passar despercebido: Jesus olhou para aquele jovem e o amou.
O confronto nasceu do amor.
Jesus não o amou menos porque tocou exatamente naquilo que ele não queria entregar. Pelo contrário, amou-o demais para permitir que continuasse enganado sobre aquilo que governava seu coração. O amor de Cristo não confirma todos os nossos desejos; algumas vezes, confronta justamente aquilo que se tornou grande demais dentro de nós.
Talvez por isso algumas palavras do Senhor nos incomodem tanto. Elas atravessam nossas justificativas e alcançam lugares que conseguimos esconder até de nós mesmos.
O jovem ouviu: “Vem e segue-me”. Mas, para segui-lo, teria de soltar aquilo que seu coração não conseguia entregar.
E ele retirou-se triste.
A tristeza daquele homem deveria nos fazer pensar. Ele esteve diante de Cristo, foi amado por Cristo, recebeu um convite de Cristo e, ainda assim, preferiu conservar aquilo que não conseguia colocar aos seus pés. Que não aconteça o mesmo conosco.
Quando Cristo tocar naquilo que consideramos precioso demais para entregar, que encontremos graça para confiar que nada daquilo que colocamos em suas mãos pode ser comparado ao privilégio de pertencermos inteiramente a Ele. Seguir a Cristo sempre terá um custo, mas aquilo que deixamos aos seus pés nunca será maior do que o tesouro de tê-lo como Senhor.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas quanto já entregamos.
A pergunta é: existe alguma coisa que ainda não permitimos que Cristo governe?
“Só uma coisa te falta.”
E você: o que ainda falta entregar?


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