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Antes da Apostasia, o Coração se Afasta Primeiro

“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios.” (1 Timóteo 4:1).

Todos nós que servimos ao Senhor há décadas já vimos muita gente começar bem a caminhada cristã e terminar mal. Pessoas que tiveram experiências profundas com Deus, serviram ao Senhor com entusiasmo e, no entanto, acabaram se afastando da fé, seduzidas em seus corações. A pergunta inevitável é: como isso acontece?

Jesus, no sermão profético, repetiu por três vezes que o engano seria uma das marcas dos últimos dias (Mateus 24:4,11,24). O engano geralmente encontra corações insatisfeitos, rebeldes ou dominados por ambições pessoais, tornando-os presas fáceis de espíritos enganadores e de ensinos que distorcem ou relativizam as verdades do evangelho.

Ao introduzir essa advertência, o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, não apresenta uma opinião pessoal nem uma preocupação decorrente de sua experiência ministerial. Ele afirma que “o Espírito declara expressamente”. A palavra traduzida por “expressamente” transmite a ideia de algo dito de maneira clara, inequívoca e sem deixar dúvidas. Trata-se de uma advertência solene do próprio Espírito Santo à igreja.

Isso significa que a apostasia não seria um acontecimento inesperado para o povo de Deus. O Senhor já havia anunciado que, nos últimos tempos, muitos se afastariam da fé. Essa advertência deve despertar em nós um espírito de vigilância, humildade e profunda dependência do Senhor.

O verbo empregado por Paulo para “apostatar” é o grego aphístēmi, que significa afastar-se, desertar ou abandonar uma posição anteriormente ocupada. A ideia é a de alguém que, depois de permanecer em determinado lugar, decide retirar-se dele. A apostasia, portanto, não descreve apenas alguém que muda de opinião ou abandona uma instituição religiosa. Trata-se do afastamento gradual da verdade de Deus revelada em sua Palavra e da comunhão viva com Cristo.

Talvez seja justamente esse o aspecto mais perigoso da apostasia. Ela raramente acontece de maneira repentina. Ninguém desperta pela manhã decidido a abandonar a fé. Antes da ruptura visível, quase sempre existe um processo silencioso acontecendo no interior do coração. Salomão nos adverte:

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” (Provérbios 4:23).

É no coração que esse processo começa. Primeiro perde-se o prazer na presença de Deus. A oração torna-se uma obrigação ou uma espécie de barganha com Ele. A leitura das Escrituras deixa de ser lâmpada e luz para o caminho e passa a ser utilizada para validar desejos e ideias pessoais. A comunhão com os irmãos passa a ser vista como algo secundário. Cristo deixa de ser o maior tesouro da alma, enquanto outros interesses ocupam, pouco a pouco, o lugar que pertence somente a Ele. Aos poucos, verdades que antes produziam temor passam a ser questionadas ou relativizadas. O pecado deixa de incomodar como antes. Aquilo que antes era motivo de arrependimento começa a ser justificado. Quando esse processo não é interrompido, o coração torna-se terreno fértil para o engano.

Por isso Paulo continua dizendo que alguns apostatarão da fé “por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios.” O texto mostra que a apostasia não começa quando alguém abandona a igreja, mas quando passa a dar ouvidos às vozes erradas.

Ninguém é enganado instantaneamente. Há um lento processo de negligência para com a verdade e de resistência à voz de Deus. Em seguida, aquilo que antes parecia estranho começa a parecer aceitável. Assim como Eva deu ouvidos aos sussurros mentirosos de Satanás, muitos acabam sendo seduzidos em seus pensamentos até que, finalmente, o erro ocupa o lugar da verdade.

Nunca houve tantas vozes disputando a atenção do coração humano. Na era da comunicação rápida e da multiplicidade de informações, somos diariamente expostos a conteúdos que relativizam a autoridade das Escrituras, diminuem a centralidade de Cristo e apresentam a igreja de forma distorcida, procurando reduzir seu valor e seu impacto na vida de milhares de pessoas. Muitos desejam um Cristo que console, mas não confronte; um evangelho que prometa benefícios, mas não exija arrependimento; uma fé que produza conforto, mas dispense a cruz.

Jesus, porém, declarou:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.” (João 10:27).

O grande desafio dos nossos dias talvez não seja apenas identificar falsos ensinos, mas conservar nossos ouvidos sensíveis à voz do Bom Pastor. O coração nunca permanece neutro. Ele sempre será moldado pela voz que decidir ouvir.

Por isso, a apostasia não começa simplesmente quando alguém passa a acreditar em uma mentira. Ela normalmente começa quando o coração deixa de amar a verdade. A incredulidade costuma ser consequência de um amor que esfriou ou de uma fé gradualmente subvertida pelo engano. É o engano da autossuficiência, do orgulho e da insensatez de abandonar as bases sólidas do evangelho, afastando-nos da comunhão da presença de Cristo.

Foi exatamente por isso que o escritor aos Hebreus advertiu:

“Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo.” (Hebreus 3:12).

Observe que o perigo não era apenas abandonar uma doutrina correta, mas permitir que o coração se afastasse do Deus vivo. Toda apostasia exterior é precedida por um afastamento interior.

Esse processo também afeta nossa relação com a igreja. Quando o coração começa a se distanciar de Deus, a comunhão com os irmãos perde seu valor. A igreja passa a ser vista como opcional. A correção fraterna torna-se incômoda. A vida cristã vai sendo substituída por uma espiritualidade individualista, que rejeita a prestação de contas e considera desnecessário caminhar em sujeição ao corpo de Cristo.

Entretanto, Deus nunca planejou que seus filhos perseverassem sozinhos. A igreja é um presente da graça divina. É nela que somos exortados, encorajados, corrigidos e fortalecidos. Desprezar o corpo de Cristo é abrir mão de um dos principais instrumentos que Deus estabeleceu para preservar nossa perseverança.

Essa advertência é um alerta para todos nós que servimos ao Senhor. É possível conservar uma aparência de fidelidade enquanto o coração já se encontra distante do Senhor. Podemos continuar exercendo atividades, frequentando cultos e desempenhando ministérios enquanto, silenciosamente, nossa comunhão com Cristo enfraquece. Foi exatamente esse o problema da igreja de Éfeso. Ela preservava a ortodoxia, trabalhava arduamente e rejeitava os falsos mestres, mas havia abandonado o primeiro amor (Apocalipse 2:1-5). O Senhor não olha apenas para nossas obras; Ele contempla o estado do nosso coração.

A resposta para essa advertência não é viver dominado pelo medo, mas permanecer diariamente em Cristo. Nossa segurança não está em nossa experiência, em nosso conhecimento bíblico ou no tempo que caminhamos com o Senhor. A fé não é preservada pela autoconfiança, mas por uma vida de constante dependência da graça, alimentada pela Palavra, fortalecida na oração e vivida em comunhão com o povo de Deus.

Os dias são maus, e o engano continuará se multiplicando. Mas aquele que permanece em Cristo encontra nele tudo de que necessita para perseverar. Que jamais permitamos que nosso coração se afaste silenciosamente daquele que nos amou e entregou sua própria vida por nós.

O Espírito Santo continua falando à sua igreja. Sua advertência permanece atual porque seu amor permanece o mesmo. Quem dá ouvidos à sua voz encontra segurança para perseverar até o fim. Que o Senhor conserve nosso coração firme na verdade, nossos olhos voltados para Cristo e nossos ouvidos sensíveis à voz do Bom Pastor, até o dia em que estaremos para sempre com Ele.

Solene Advertência!


Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele”. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que crêem e são salvos. HB 10:38-39. NVI.

Qualquer vitória que alcançamos até aqui foi e continuará sendo pela fé. É pela fé que perseveramos, renunciamos e nos esforçamos para agradar a Deus. Pela fé, visamos ser fiéis ao Senhor, enfrentando toda oposição das trevas, do mundo com suas seduções e da carne com suas tentações. A fé firme mantém nosso olhar na eternidade e, quando a fé definha, começamos a olhar para nós mesmos, dando os primeiros passos para o retrocesso em nossa vida espiritual. O Senhor deixa claro que não se agrada dos que retrocedem e o trocam por qualquer outra coisa.

O apóstolo termina este capítulo afirmando que nós não somos dos que retrocedem para a perdição. Nossas escolhas têm consequências diante de Deus e algumas dessas escolhas podem nos levar à perdição. Decidir por Deus e sua vontade é uma escolha da fé, que resultará na nossa vitória final, a salvação de nossas almas.

Cabe a cada um de nós refletir como está a nossa fé após tantos anos de caminhada, e se necessário, nos arrependermos, buscando ajuda e renovo para os nossos corações.

1 João 5:4 porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.