O Grão que Morre: A Humildade que Preserva o Ministério
“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (João 12:24)
No ministério, onde muitos enxergam espaço para reconhecimento, Cristo nos lembra que a verdadeira frutificação nasce do caminho oposto: o da entrega e da humildade. Pastores e líderes são chamados a viver como o grão que morre, para que a Glória de Deus, e não a nossa, seja vista em tudo o que fazemos.
O texto que tomamos como base narra acontecimentos da vida de Jesus que se desenrolaram geograficamente entre a cidade de Betânia e Jerusalém, num momento crucial do seu ministério.
Jesus chega a Betânia seis dias antes da Páscoa (João 12:1) e havia grande agitação na cidade. Lázaro, a quem Ele ressuscitou, era de Betânia (capítulo 11). Foi em Betânia que ele foi ungido por Maria com um perfume caro, e disse que aquele ato era um gesto de devoção que antecipava o cerimonial da sua morte (12:7). No dia seguinte, vemos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, que ficava, em média, a três quilômetros de Betânia, com as multidões clamando: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor,” gerando grande irritação nos líderes religiosos que viram aquela cena (João 12:12-19). Em meio a esses acontecimentos, já no templo, um grupo de gregos solicita uma audiência com Ele, demonstrando como a sua fama estava se espalhando e alcançando a muitos (João 12:20-22). E foi nesse contexto que Jesus afirmou a necessidade da sua morte para que produzisse salvação: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (João 12:24).
Creio que essa afirmação de Jesus nos leva a refletir sob qual perspectiva exercemos nosso serviço na casa de Deus: a da busca por nossa projeção ou pelo estabelecimento da sua glória. Enquanto muitos veem no ministério uma posição de status e reconhecimento, Jesus nos mostra que esse é um lugar de autossacrifício, entrega e doação, onde a vida brota se morrermos para nós mesmos e para o ego.
Para que a semente dê fruto, primeiro ela deve morrer; da mesma forma, um homem chamado por Deus precisa morrer para si para que a glória do Senhor se manifeste em sua vida. Disputas e ambições por visibilidade devem ir para a cruz, e o desejo por reconhecimento deve ser abandonado. Buscar um coração quebrantado no exercício da liderança é de suma importância para o ministério, pois líderes quebrantados não disputam com Ele. O pecado da soberba é uma das principais ameaças aos que ocupam posições de liderança.
Na Palavra do Senhor encontramos várias advertências contra a soberba, e creio que os que lideram devem dar maior atenção a elas, pois os talentos e dons recebidos da parte de Deus podem se transformar em tentação à exaltação própria. Em Ezequiel 28 encontramos uma profecia contra o rei de Tiro que parece transcender a um simples governante humano, pois ele é retratado com grande poder, beleza e sabedoria (vv. 11–15). Muitos teólogos atribuem essa passagem à queda de Lúcifer. O versículo 17 revela o motivo de sua queda: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura; corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor.” Quantos homens talentosos já foram reprovados por Deus ao acharem que seus dons vieram deles mesmos e não do Senhor? Seduziram-se pela beleza e sabedoria dos dons que receberam. E afirmo que muitos desses homens continuam no ministério.
Em Provérbios lemos: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.” (Provérbios 16:18). Às vezes, atitudes que parecem piedosas escondem motivações pecaminosas que ofendem a santidade de Deus, seja numa oração buscando poder, numa pregação bem elaborada, ou quando destacamos nossas virtudes. Muitas dessas práticas podem estar corrompidas pelo ego; nesse engano, tentamos roubar a glória que pertence somente ao Senhor.
Não há caminho mais excelente para quem exerce autoridade na casa de Deus do que o exemplo deixado por Jesus. Ele se humilhou e se esvaziou, conforme Filipenses 2:5-8. Mas isso não é possível em homens inteiros, que não compreendem que a vida frutífera nasce da morte do eu. Se o grão de trigo não morrer, não pode dar fruto. Quando um líder carrega um conceito elevado de si, torna-se uma ameaça ao rebanho: não aceita críticas, não reconhece erros, não se submete à correção. E como é perigoso pensarmos de nós o que não somos!
Paulo escreve à igreja de Roma: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Romanos 12:3). Ele sabia que a graça operante nele vinha do Senhor. Parece que o episódio do “espinho na carne” gravou nele lições eternas (2 Coríntios 12:7-9). Um homem que não é confrontado com seu orgulho não está pronto para cooperar com Deus, ainda que seus dons estejam em operação. Não é de admirar que muitos homens usados por Deus não gozem de Sua aprovação e, como Saul, preferem a honra dos homens ao arrependimento profundo (1 Samuel 15:30).
Pensar com moderação sobre si mesmos é a orientação apostólica para os que lideram. Portanto, alguns conselhos podem proteger a igreja do Senhor de homens que amam a posição que ocupam a ponto de se tornarem incorrigíveis:
- Ouça os conselhos dos irmãos mais experientes.
- Avalie as críticas com o coração antes de se defender.
- Não pastorear a igreja sozinho. Você pode errar muito.
- Trate os irmãos com respeito. Eles não são propriedade sua.
- Ame mais a presença de Deus do que o púlpito. Isso te guardará do egoísmo.
- Não se deixe levar pelas glórias humanas, para não ser reprovado por Deus.
- E, tenha cuidado. Você não é o protagonista na igreja do Senhor.
Quando o homem compreende a grandeza do seu chamado, deve prostrar-se diariamente diante do Senhor, buscar o esvaziamento e vigiar as ambições do seu coração. Jesus declarou: “Eu não aceito glória que vem dos homens.” (João 5:41). Que jamais sejamos seduzidos pela necessidade de reconhecimento a ponto de sermos reprovados por Deus.
Assim como o grão de trigo deve morrer para produzir frutos, aqueles chamados por Ele, precisam entender que esse é o único caminho para uma colheita abundante.
Que Ele nos atraia para si com mansidão e humildade.
Que amemos mais os seus átrios do que a presença dos homens.
Busquemos o seu caminho, mesmo que ele nos conduza ao deserto do quebrantamento.
E, por fim, que Ele refine o nosso coração como o ouro, que, quanto mais puro, mais maleável se torna.
Se a morte do eu operar em nós, nossos ministérios serão muito mais frutíferos.
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.” (João 3:30).











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