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Homens Úteis ou Homens Rendidos?

O que a queda de Pedro ainda ensina à igreja?

“Entretanto, Pedro insistia com eloquência: ‘Ainda que seja preciso que eu morra ao teu lado, jamais te negarei!’ E da mesma maneira responderam todos os demais.” (Marcos 14:31)

Quantos servos de Deus confundem muito serviço com quebrantamento e rendição ao Senhor? Pessoas incansáveis na obra, até serem provadas no mais extremo de sua fidelidade.

Pedro amava Jesus profundamente, disso não há dúvida. Seu coração era impulsivo, intenso e disposto. O problema não estava na ausência de amor, mas na falta de compreensão acerca de si mesmo.

Nem sempre um grande amor pela obra significa uma rendição total ao custo do discipulado.

É possível amar ao Senhor e, ao mesmo tempo, confiar excessivamente em si mesmo. É possível caminhar com Cristo, ouvir suas palavras, testemunhar milagres, participar da obra e ainda não ter sido profundamente quebrantado. Já vimos dedicados servos de Deus sucumbirem às provações inesperadas da caminhada.

Pedro cria sinceramente que jamais negaria a Jesus, mas sua confiança estava mais em sua disposição pessoal do que na graça sustentadora do Senhor.

Quantos de nós não corremos o mesmo risco?

Há cristãos que conhecem a linguagem do evangelho, trabalham intensamente na igreja, exercem funções ministeriais, pregam, ensinam, cantam e servem continuamente, mas pouco conhecem da profundidade de uma vida de intimidade verdadeira com Cristo.

Pessoas que entendem muito da obra, mas pouco do Senhor da obra. Sabem trabalhar para Deus, mas não sabem permanecer diante dele.

Lembro-me de que, há muitos anos, o Senhor falou comigo por meio de um versículo bem conhecido:
“Deleita-te no SENHOR, e Ele satisfará os desejos do teu coração.” (Salmos 37:4 KJA).

Naquela época eu exigia muito de mim mesmo e vivia constantemente frustrado por sentir que nunca fazia o suficiente para o meu Senhor. Minha relação com Ele era pesada, cansativa e marcada pela culpa. Até que o Senhor começou a me mostrar que aquilo que mais lhe traz alegria não é, em primeiro lugar, o nosso desempenho, mas o nosso amor e rendição a Ele. O serviço é consequência do relacionamento, não o contrário.

Então o Salmo 16:11 passou a fazer sentido para mim:

“Tu me fizeste conhecer o caminho da vida, a plena felicidade da tua presença e o eterno prazer de estar na tua destra.” (KJA).

Talvez Pedro ainda não tivesse compreendido essa verdade.

O próprio Pedro já havia sido enviado por Jesus. Pregou, expulsou demônios e participou ativamente da missão dos discípulos. No entanto, quando confrontado em seu amor pelo Senhor, sucumbiu diante de uma simples pergunta:

“Então, a criada, encarregada da porta, perguntou a Pedro: Não és tu também um dos discípulos deste homem? Não sou, respondeu ele.” (João 18:17)

Isso deve nos constranger profundamente, porque revela que atividade espiritual não é sinônimo de maturidade espiritual.
Aquela prova não exigia que Pedro trabalhasse mais. Exigia que ele amasse mais a Cristo do que a própria vida.

Pedro estava disposto a fazer grandes coisas por Cristo, mas ainda não havia aprendido a morrer para si mesmo.
Enquanto o nosso amor pelo Senhor não ultrapassar a barreira do nosso amor próprio, estaremos suscetíveis a negar a Cristo diante das pressões, dos interesses pessoais, do medo e das circunstâncias.

Talvez não o neguemos verbalmente como Pedro fez no pátio do sumo sacerdote, mas o negamos silenciosamente quando preservamos nossa reputação acima da verdade, nosso conforto acima da obediência e nossos interesses acima da vontade de Deus.

O problema de muitos não é falta de envolvimento com a obra. É falta de rendição.

Há pessoas cansadas de tanto trabalhar para Deus, mas que nunca aprenderam a se derramar aos pés de Cristo. Acumulam atividades, responsabilidades e funções, porém negligenciam oração, comunhão, devoção e intimidade. Tornaram-se especialistas em servir sem permanecer e, por esse motivo, não conseguem parar simplesmente para contemplar, adorar e desfrutar da presença do Senhor sem sentir culpa.

Isso é extremamente perigoso, porque o serviço cristão jamais foi chamado para substituir relacionamento com o Senhor. A obra não pode ocupar o lugar do altar. O ministério não pode substituir a comunhão.

O ativismo religioso jamais produzirá transformação profunda se o coração continuar distante do Senhor.
A queda de Pedro nos lembra de uma verdade dolorosa: ninguém é tão forte quanto imagina ser.

Por isso as Escrituras nos ensinam:

“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” (1 Coríntios 10:12)

O Senhor permitiu que Pedro fosse abalado não para destruí-lo, mas para quebrar sua autoconfiança. Antes da queda, Pedro falava mais do que orava. Prometia mais do que dependia. Confiava mais em seu amor por Cristo do que no amor de Cristo por ele.
Mas depois do quebrantamento surge um novo homem.

Menos impulsivo.
Menos autossuficiente.
Mais dependente da graça.
Mais consciente da própria fragilidade.

Existe uma profundidade espiritual que só nasce quando somos confrontados com aquilo que realmente somos sem a sustentação do Senhor.

Talvez uma das maiores tragédias da vida cristã seja servir ao Senhor sem verdadeiramente conhecê-lo em profundidade. Trabalhar para ele sem desfrutar dele. Falar sobre ele sem permanecer nele.

Um dia, tudo o que fizermos será provado. E o que restará?

O apóstolo Paulo escreveu aos coríntios:

“Manifesta se tornará a obra de cada um; pois o dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará.” (1 Coríntios 3:13)

O fogo de Deus não revela apenas o que construímos. Revela também a motivação do nosso serviço e aquilo que sustenta o nosso coração.
A prova revela se estamos edificando sobre intimidade ou apenas sobre aparência. Revela se servimos por amor a Cristo ou apenas por apego à posição, reconhecimento, costume ou identidade ministerial.

Por isso, mais importante do que fazer algo para Deus é pertencer completamente a ele.

O Senhor não procura apenas servos úteis. Procura servos rendidos.
Servos que compreendam que sem sua graça nada podem fazer.
Servos que saibam parar antes de correr.
Servos que valorizem mais a presença do que a performance.
Servos que amem mais a Cristo do que a si mesmos.

Pedro caiu, chorou amargamente e foi restaurado. E talvez tenha sido justamente ali, entre lágrimas, fracasso e quebrantamento, que começou a nascer o verdadeiro Pedro que entregaria a própria vida por amor a Cristo e à sua igreja nos anos seguintes.
Porque somente quando o ego é ferido, a graça passa a ser verdadeiramente valorizada.

Pensar Com Moderação: A Chave Para Usar os Dons de Deus

Romanos 12:3 Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um.

A recepção dos dons de Deus traz consigo não apenas poder, mas também uma grande responsabilidade: a de manter uma visão equilibrada de si mesmo. O orgulho e a imaturidade são desvios perigosos, capazes de distorcer essa percepção. Uma vez que as capacitações do Espírito colocam, naturalmente, o indivíduo em evidência, torna-se crucial a vigilância contra a tentação de se sentir superior. É nesse contexto que a palavra preventiva de Paulo ressoa, alertando contra a autoexaltação que mina a unidade da igreja, semeando desprezo e divisões.

Esse é um dos fatores que mais geraram divisões e destruição na igreja. Homens que, ao receberem dons de Deus, já não se submetem a ninguém, e, ao final, produzem muitos prejuízos na igreja de Cristo. Paulo, aborda aqui, não a capacidade, mas a motivação e maturidade dos que recebem capacitações da parte de Deus na igreja.

É preciso humildade, para não pensarmos que temos mais do que o Senhor nos repartiu. Ter uma avaliação honesta e madura de nós mesmos, entendendo que somos parte de uma grande engrenagem com funções específicas e limitadas, entendendo que ninguém tem todos os dons e capacitações. Por esse motivo, ele escreve: “Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros.” (Romanos 12:4-5).

Essa ênfase do apóstolo traz consigo um profundo ensinamento de humildade e maturidade para os obreiros do Senhor. Não devemos querer nenhum protagonismo, pois não estamos em nenhum projeto pessoal, e, além disso, não sou eu que produzo o dom, apenas recebo da parte de Deus para usá-lo para o bem de toda a igreja. Ele toma a analogia do corpo humano para ilustrar a importância da diversidade dos dons distribuídos na igreja.

O pé não é mais importante que a mão, nem os olhos mais importantes que a boca. Assim, é também no corpo de Cristo. São diferentes dons, porém todos devem cooperar de igual modo para a edificação, tendo cuidado para que nenhum membro do corpo, saia da sintonia de seu funcionamento, gerando assim, uma anomalia e perturbando o bom funcionamento do mesmo. A preocupação do apóstolo no versículo que iniciamos é com a motivação interior e a compreensão que devemos ter com o nosso foro íntimo no uso dos dons. Ele nos convida a fazermos avaliações honestas de nós mesmos e não sermos enganados pelo nosso coração, achando que somos maiores ou melhores que os outros irmãos.

Essa compreensão nos ajudará a termos cuidado no falar, agir ou até mesmo, nos calar para que o corpo de Cristo cresça em harmonia e maturidade. Devemos ter consciência que o que temos é apenas uma medida de graça e não toda a graça. Em última análise, a exortação de Paulo em Romanos 12:3 nos apela para um caminhar contínuo de maturidade no exercício dos dons que Deus graciosamente concede à sua igreja. Não basta receber a capacitação do Espírito; é imperativo que essa manifestação divina seja acompanhada de uma avaliação honesta de nós mesmos, despojada de orgulho e infantilidade. A verdadeira evidência de um dom genuíno reside não apenas em sua operação, mas na humildade e na moderação com que é exercido.

Quando cada membro do Corpo de Cristo compreende a sua medida e a sua função, reconhecendo a interdependência vital com os demais, a ordem floresce naturalmente na igreja. O protagonismo individual cede lugar à sinfonia do serviço coletivo, onde a glória não reside no talento isolado, mas na edificação mútua. A maturidade no uso dos dons, portanto, é um antídoto poderoso contra a confusão e as divisões, pavimentando o caminho para um corpo saudável, unido e eficaz no cumprimento da sua missão. Que cada um de nós busque essa maturidade, para que os dons de Deus não sejam causa de desordem, mas instrumentos de graça e edificação na igreja de Cristo.

O Caminho da Humildade.

No caminho da humildade, os homens se tornam grandes, mesmo não sendo pessoas de destaque ou de talentos especiais. Nesse caminho, as celebridades não encontram prazer, pois ali não há espaço para o ego. Os peregrinos desse caminho enfrentam muitas vezes, uma solidão esmagadora que os levam a reflexões profundas, tornando-os mais conscientes de quem realmente são, e assim, já não valorizam a glória humana. Não necessitam de reconhecimento ou a frágil necessidade de serem destacados pelos homens, pois, nesse caminho, brotam sentimentos inversos que antagonizam com os desejos coletivos de honra, poder e autoexaltação tão comuns às Almas medíocres. Os peregrinos desse caminho vislumbraram um grande Rei que se despiu de suas vestes reais e vestiu-se como um escravo. Viveu, serviu, amou e mudou a história do mundo, sem exigir nenhum tipo de reconhecimento, aplauso ou aprovação dos homens. Um rei que andou na contramão do ego!

Os que trilham o caminho da humildade são grandes, mas não sabem disso, pois a grandeza, diante do exemplo do grande Rei, perdeu a importância. Os tais peregrinos estão tão fascinados com o Rei que não mais percebem a mudança interior que acontece em seus próprios corações. Mudança de caráter que ocorre de dentro para fora e transforma homens vis em virtuosos, agradáveis, acessíveis e abençoadores.

O caminho da humildade é nivelador, pois seus andarilhos não carregam diplomas nem ostentam títulos, falam pouco e não querem ser notados. Falam do Rei e não de si, lembram das palavras mais marcantes, “aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração,” palavras que nenhum estadista humano jamais pronunciou no exercício de seu reinado.

Os que trilham a longa estrada da humildade, só o fazem devido à experiência chocante com o grande Rei, Jesus, autor da vida e sustentador de todas as coisas. Esses peregrinos descobriram que a humildade não é um comportamento exterior, mas uma pessoa, o Cristo ressurreto vivendo a sua vida neles.