O Chamado de Deus: Aproveitando Cada Oportunidade
Uma reflexão sobre viver com sabedoria e propósito à luz de Colossenses 4:5
“Portai-vos com sabedoria para com os que são de fora; aproveitai ao máximo todas as oportunidades.” (Colossenses 4:5 KJA)
John Harper nasceu em 1872, na cidade de Glasgow, na Escócia. Aos 14 anos, teve um encontro com Cristo e, a partir daquele momento, passou a anunciar o evangelho a outros. Aos 17 anos, já podia ser visto pelas ruas de sua cidade proclamando a mensagem da salvação. Seu coração ardia pelos perdidos.
Em setembro de 1896, iniciou sua própria igreja com apenas 25 membros. Treze anos depois, ao deixar o ministério, a igreja já contava com mais de 500 membros. Durante esse período, casou-se, enfrentou a dor de ficar viúvo e teve uma filha chamada Nana.
Em 1912, foi convidado para pregar nos Estados Unidos. Embarcou rumo à América acompanhado de sua filha, então com 6 anos, e de uma prima mais velha. O navio era o RMS Titanic.
Algumas noites após a partida, o navio colidiu com um iceberg e começou a afundar.
Os últimos momentos da vida de John Harper foram registrados por testemunhas, entre elas sua própria filha, que morreu em 1986 aos 80 anos, e um jovem escocês que estava a bordo naquela noite.
Esse jovem relatou que, em meio às águas geladas, estava agarrado a um pedaço de destroço quando, de repente, uma onda trouxe Harper para perto dele. Ambos lutavam pela vida.
Harper então gritou: “Homem, você é salvo?”
“Não”, respondeu o jovem.
Harper insistiu: “Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo.”
As ondas os separaram, mas pouco depois os aproximaram novamente. Mais uma vez, Harper perguntou: “Você está salvo agora?”
“Não”, foi a resposta.
E, pela segunda vez, ele declarou: “Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo.”
Logo em seguida, soltando o pedaço de madeira, Harper afundou nas águas.
Alguns meses depois, numa reunião de oração em Hamilton (Ontário), aquele jovem testemunhou com lágrimas: “Ali, sozinho naquela noite, com mais de três quilômetros de água abaixo de mim, eu confiei em Cristo como meu Salvador. Sou o último convertido de John Harper.”
(Essa história pode ser encontrada no livro O Evangelho e a Evangelização, de Mark Dever, publicado pela Editora Fiel.)
Ao terminar de ler a história de John Harper, não pude conter as lágrimas. Fiquei maravilhado com o poder do evangelho e, ao mesmo tempo, profundamente confrontado em meu coração.
Fui levado a uma pergunta inevitável: tenho eu aproveitado, com sabedoria, as oportunidades que o Senhor me concede para anunciar a salvação em Jesus? Ou tenho vivido em torno de mim mesmo?
É exatamente a esse questionamento que o apóstolo Paulo nos leva na carta aos colossenses.
Embora me considere apaixonado pelo evangelho e comprometido com ele, sempre me sinto devedor no que diz respeito a ser mais diligente em compartilhar Cristo com os que cruzam o meu caminho. Reconheço que, muitas vezes, deixo boas oportunidades passarem.
O apóstolo nos chama a andar com sabedoria para com os que estão de fora, aproveitando ao máximo cada oportunidade. O termo grego (exagorazō) traz o sentido de resgatar, aproveitar intensamente, como quem não permite que uma oportunidade se perca, mas a agarra com propósito.
Quantas vezes o Senhor nos dá oportunidades de pregar e compartilhar a nossa fé, mas deixamos passar? Ora por medo, ora por displicência, ou pior: às vezes, por total falta de compromisso com a nossa vocação.
Quando transformamos o dever cotidiano de pregar numa programação especial, acabamos não pregando para ninguém. Deixamos escapar as oportunidades simples e diárias que o Senhor coloca diante de nós.
Na carta aos romanos, o apóstolo afirma ter recebido a graça de Deus “de ser um ministro de Cristo Jesus para os gentios, com o dever sacerdotal de proclamar o Evangelho de Deus, para que os gentios se tornem uma oferta aceitável a Deus, santificados pelo Espírito Santo” (Romanos 15:16 KJA).
Paulo tinha uma profunda consciência missionária. Entendia a sua principal vocação, a qual via como um dever sacerdotal de proclamar o evangelho. Essa postura nada tem a ver com medo ou culpa, mas com um entendimento claro do chamado recebido.
O nosso amado Jesus nos incumbiu da missão de pregar o evangelho do Reino de Deus a todos. Ele disse: “Ide e fazei discípulos de todas as nações…” (Mateus 28:19). Esta é a nossa missão primordial. Quero observar, porém, um ponto importante nesse texto:
O termo “ide” no grego é poreuthéntes, que está no particípio aoristo e não no imperativo principal da frase. Isso muda significativamente a nuance do texto. Uma tradução mais precisa seria: “indo”, ou “enquanto vão”, ou ainda “à medida que forem”.
Assim, o texto poderia ser compreendido dessa forma:
“Portanto, indo (ou enquanto vão), façam discípulos de todas as nações…”
A ênfase da ordem de Jesus não está primariamente no deslocamento geográfico, mas na missão contínua de fazer discípulos no caminho da vida.
O “ir” não é descartado, mas assume o caráter de um movimento natural da vida do discípulo. Onde quer que ele esteja, onde quer que vá, ele vive como alguém enviado. Não se trata apenas de “ir para longe”, mas de viver em estado de missão.
Escrevendo aos irmãos de Roma, o apóstolo Paulo revela como se sentia em relação à sua missão: “Eu sou devedor, tanto a gregos quanto a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” (Romanos 1:14).
Talvez esse fosse o sentimento que habitava o coração de John Harper ao usar seus últimos momentos para testemunhar de Cristo: um profundo senso de amor e compromisso com a pregação do evangelho.
Chegando ao final dessa reflexão, gostaria de retornar ao texto de Colossenses 4:5: “Andar com sabedoria para com os de fora e aproveitar ao máximo cada oportunidade.”
Diante da Palavra do Senhor, algumas perguntas devem nos incomodar:
À luz da exortação paulina, como tenho vivido para com os de fora?
Tenho aproveitado as oportunidades que o Senhor coloca diante de mim para pregar o evangelho ou tenho vivido em torno de mim mesmo?
E, se por algum motivo essa paixão se perdeu, diante dessa palavra, o que pretendo fazer?
Lembremo-nos das palavras de Jesus, da exortação dos apóstolos, e consideremos que o Senhor, em sua graça, continua nos oferecendo oportunidades todos os dias.
Que haja em nós arrependimento sincero, um novo despertar espiritual e frutos que glorifiquem o nome do Senhor.
E que, a partir de hoje, não vivamos mais de forma distraída, mas como aqueles que compreenderam que cada oportunidade pode carregar um valor eterno.
Que o Senhor nos encontre vivendo com propósito, atentos às oportunidades que Ele mesmo coloca diante de nós.


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