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O Altar Ocupado: Quando líderes tomam o lugar de Cristo

“…para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro.” (1 Coríntios 4:6)

Há muitos anos atrás, ouvi algo do meu pai na fé que nunca mais saiu da minha mente. Ele disse: “Cláudio, o grande problema da igreja evangélica é que ela derruba os ídolos pagãos e levanta ídolos cristãos.” E, quanto mais o tempo passa, mais aquela frase se prova verdadeira.

Embora o Senhor trabalhe na igreja por meio de homens que Ele escolheu, Ele sabe como é prejudicial que homens queiram ocupar o lugar de Cristo, tornando-se o centro das admirações, ou mesmo quando a própria igreja lhes concede a centralidade que é devida somente a Ele.

A igreja em Corinto enfrentava um problema que, infelizmente, ainda se repete em nossos dias: a tendência de exaltar homens em detrimento da centralidade de Cristo. Logo no início da carta, o apóstolo Paulo denuncia esse comportamento dos irmãos de Corinto: “Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas…” (1 Co 1:12). O que parecia, à primeira vista, uma simples preferência pessoal revelava, na verdade, corações divididos e uma compreensão distorcida da natureza da igreja.

Ao longo dos quatro primeiros capítulos, Paulo trata essa questão com firmeza e zelo apostólico. Ele não apenas corrige o comportamento externo, mas expõe a raiz do problema: o orgulho humano, a carnalidade e a incapacidade de discernir espiritualmente os perigos que esse comportamento representa.

A preferência por líderes não é, em si, o problema central. É natural que nos identifiquemos com estilos, ênfases e formas de ensino diferentes. O perigo surge quando essa preferência se transforma em partidarismo, e começamos a nos alinhar mais a homens do que a Cristo, mais a ministérios do que à mensagem do evangelho. Nesse ponto, o que deveria edificar passa a dividir.

Paulo confronta essa distorção lembrando que tanto ele quanto Apolo são apenas servos: “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes…” (1 Co 3:5). Ele desmonta qualquer tentativa de glorificação humana ao afirmar que um planta, outro rega, mas é Deus quem dá o crescimento (1 Coríntios 3:6). Ou seja, trata-se de um papel importante, mas secundário. Ainda assim, muitos agem como se ocupassem o lugar principal. No entanto, toda a obra pertence ao Senhor, e nenhum homem pode reivindicar para si aquilo que é fruto da graça de Deus.

Ele vai além, nos lembrando que tudo o que temos não é nosso, pois foi Ele quem nos concedeu: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Coríntios 4:7).

Esses argumentos do apóstolo confrontam os dois lados. Corrigem a igreja em sua postura carnal e os líderes, para que evitem desejar qualquer protagonismo. O perigo do preferencialismo não reside apenas na plateia que aplaude, mas também no púlpito que se deixa seduzir pelo aplauso. Quando um líder se torna o “sol” em torno do qual a igreja passa a orbitar, qualquer eclipse em sua vida pessoal ou ministerial lançará toda a comunidade em trevas.

Quando perdemos essa perspectiva, corremos o risco de transformar instrumentos em ídolos. E esse é um dos perigos mais sutis dentro da igreja: não rejeitamos a Deus, mas começamos a reorganizar nossa devoção em torno de pessoas, estilos ou estruturas. Sem perceber, deixamos de buscar a Cristo como fonte e passamos a buscar homens como referência final. O apóstolo é contundente ao afirmar: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3:11).

Paulo afirma que essa postura revela imaturidade espiritual: “Porque ainda sois carnais…” (1 Co 3:3). A admoestação do apóstolo mostra que, apesar do tempo, eles não haviam amadurecido. A divisão, o ciúme e as disputas são evidências de uma fé que ainda não foi plenamente moldada pelo evangelho. Não basta ser zeloso. É preciso humildade e temor para não alimentar divisões, e também esforço pela unidade do corpo de Cristo. Uma igreja centrada em Cristo é marcada pela unidade; uma igreja centrada em homens inevitavelmente se fragmentará.

Ele enfatiza que o crescimento espiritual vem de Deus e não da habilidade humana. Quando a igreja foca em homens e não em Jesus, ela atesta sua infantilidade espiritual. Paulo afirma: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” (1 Coríntios 3:7-8). Na igreja deve haver instrumentos, não protagonistas.

No capítulo 2, Paulo já havia estabelecido o fundamento: “Nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.” (1 Co 2:2). Essa declaração não é apenas teológica, mas prática. Ela define o eixo da vida da igreja. Quando Cristo, e especificamente sua obra na cruz, é o centro, não há espaço para competição entre homens, pois todos se encontram igualmente na condição de cooperadores. Ele afirma: “Porque nós somos cooperadores de Deus…” (1 Coríntios 3:9). O termo (synergoí), no grego, aponta para aqueles que participam da obra de Deus, sem jamais ocupar o lugar de Deus. Não se trata de uma cooperação entre iguais, mas do serviço humilde de quem foi chamado a trabalhar em algo que não lhe pertence. Paulo está nos lembrando mais o que não somos do que aquilo que muitas vezes pensamos ser na igreja de Cristo.

Chegando ao capítulo 4, Paulo nos oferece uma chave essencial para lidar com esse problema: “não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo em favor de um contra o outro.” Essa exortação nos chama de volta à sobriedade das Escrituras. Quando ultrapassamos esse limite, começamos a construir nossas próprias métricas de valor, exaltando uns e diminuindo outros com base em critérios humanos ou preferências pessoais, e não na verdade de Deus.

O preferencialismo idólatra por líderes revela que a igreja ainda é espiritualmente imatura. Ele expõe nossa tendência de buscar segurança em figuras visíveis, em vez de desenvolver uma fé firmada na suficiência de Cristo. É mais fácil seguir homens do que se render completamente ao senhorio de Jesus.
Isso não significa desvalorizar líderes. Pelo contrário, a própria Escritura nos ensina a honrá-los. No entanto, há uma linha tênue entre honra e exaltação indevida. Líderes são dons de Deus à igreja, mas nunca substitutos de Cristo. Quando essa ordem é invertida, a igreja perde sua identidade e compromete sua unidade.

A solução apresentada por Paulo não é a eliminação das diferenças, mas a centralização em Cristo. Quando todos olham para Ele, as diferenças deixam de ser motivo de divisão e passam a contribuir para a edificação do corpo. A unidade da igreja não está na uniformidade de preferências, mas na comunhão em torno de uma única pessoa: Jesus.

Nenhum ministério tem tudo em si mesmo. A unidade é perfeita quando há pluralidade ministerial e não competição entre ministérios.
Esse texto nos chama a um exame sincero. Em quem temos nos apoiado? Em quem temos colocado nossas expectativas? Nossas conversas, admirações e referências revelam mais sobre Cristo ou sobre homens?
A igreja saudável não é aquela que possui os melhores líderes, mas aquela que, mesmo sendo bem servida por eles, não perde de vista que todos são apenas cooperadores de uma obra que pertence exclusivamente a Deus.

Que o Senhor nos guarde de um coração faccioso e nos conduza de volta à simplicidade e profundidade do evangelho. Que Cristo seja, de fato, o centro, não apenas em nossas declarações, mas em nossas preferências, decisões e relacionamentos dentro da igreja.

Porque, no fim, não é sobre quem planta ou quem rega.
É sobre quem, soberanamente, dá o crescimento.