Arquivo para Tag: embaraços

O Peso Que Você Carrega Pode Estar Atrasando A sua Caminhada

Uma advertência sobre os embaraços silenciosos que comprometem a caminhada cristã

“Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus autor e consumador da fé…” (Hebreus 12:1-2).

Jesus, ao falar sobre o contexto dos últimos dias, nos deixou uma advertência que precisamos considerar com atenção: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos.” (Mateus 24:12). Como pastor e observador da igreja há mais de três décadas, posso constatar o poder corruptor e desanimador de um mundo rebelde e antagônico a Deus sobre a vida dos cristãos.

Não é apenas a degradação moral, mas também o relativismo, o cinismo e a indiferença de um mundo alienado de Deus, que trabalha com inteligência e sutileza para corromper e enfraquecer os pilares e os valores que sustentam a fé cristã. Diante desse ataque tão intenso, muitas igrejas já não consideram importante a pregação da radicalidade da cruz, sucumbindo a um evangelho mais terapêutico e menos confrontador da realidade do pecado no coração humano.

Nesse contexto, precisamos entender que a vida cristã não é apresentada nas Escrituras como um caminho leve e descompromissado, mas como uma corrida. Uma jornada que exige de nós atenção, disciplina e perseverança. O escritor aos Hebreus nos chama a correr, mas não de qualquer maneira. Há um modo de correr, há uma postura a ser assumida, e há também advertências claras sobre aquilo que pode comprometer o nosso avanço.

Somos convidados a nos desembaraçar de todo peso e do pecado que tão de perto nos rodeia. Nem tudo que atrapalha a nossa caminhada é, necessariamente, pecado; há pesos lícitos que, quando fora do seu devido lugar, tornam-se embaraços espirituais. Muitas vezes, o problema começa no interior, quando o coração se divide e perde o foco. Por isso, o caminho é claro: olhar firmemente para Jesus, o autor e consumador da nossa fé. É Ele quem a inicia e a sustenta até o fim; quando nossos olhos se desviam dEle, os embaraços começam a se acumular quase sem percebermos.

É nesse ponto que precisamos parar e examinar a nossa própria vida com sinceridade. Há momentos em que o excesso de atividades, por exemplo, começa a ocupar um espaço que não deveria. Jesus, ao falar com Marta, não condena o serviço, mas revela um coração afadigado, inquieto, envolvido com muitas coisas, mas distante do essencial. O problema não era o que ela fazia, mas a incapacidade de discernir prioridades. Quando não sabemos o lugar da oração, da Palavra e da comunhão com o corpo, começamos a viver ocupados, porém espiritualmente enfraquecidos. Nem toda atividade é avanço; há ocupações que, embora legítimas, tornam-se pesos quando nos afastam da presença de Deus.

Vivemos também em um tempo marcado por um fluxo constante de informações. Há sempre algo novo para ver, ouvir, aprender. Em Atos 17:21, os atenienses são descritos como aqueles que gastavam o tempo apenas em dizer ou ouvir as últimas novidades. Essa disposição, que pode parecer inofensiva, revela um coração inquieto, incapaz de se sossegar diante da verdade. Uma mente cheia de informações nem sempre é sinal de maturidade espiritual. Quando nos tornamos escravos de novidades, perdemos profundidade, perdemos foco e, pouco a pouco, nos tornamos superficiais naquilo que realmente importa.

Há algum tempo percebi como esse excesso de pregações e pregadores nas redes sociais transformou-se num grande entretenimento e embaraço para a vida de muitos. Alguns trocaram seus pastores presentes por pastores virtuais distantes. Vejo que muitos irmãos não sabem mais o que é meditar, orar e desenvolver uma vida pessoal com Deus, pois recebem porções prontas diariamente. São devocionais prontos, vídeos curtos e curiosidades bíblicas que nos envolvem numa atmosfera de espiritualidade artificial, mas nos mantêm em profunda superficialidade. E, como os atenienses, que amavam as últimas novidades, vamos nos embaraçando em um excesso de religiosidade.

Há ainda os desejos que, quando desordenados, passam a governar o coração. Jesus alerta que os cuidados do mundo e os enganos das riquezas sufocam a Palavra, tornando-a infrutífera (Mateus 13:22). Não são apenas os pecados evidentes que fazem isso, mas também os anseios legítimos que se tornam centrais. A busca por realização pessoal, por estabilidade, por conquistas, quando colocadas acima de Cristo, passam a ocupar um lugar que não lhes pertence. Em Lucas 17:26-28, vemos homens vivendo suas rotinas, envolvidos com suas atividades, até que são surpreendidos. O texto diz que eles comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, compravam e vendiam. O problema não estava nas atividades em si, mas no fato de que Deus já não era o centro.

Os embaraços também se manifestam nas relações pessoais. Um coração que não perdoa se torna pesado, preso ao passado, incapaz de avançar com leveza. Jesus nos ensina que não podemos nos aproximar de Deus ignorando aquilo que precisa ser tratado com o próximo. Feridas não resolvidas, conflitos não tratados, ressentimentos guardados, tudo isso se torna carga desnecessária para quem foi chamado a correr. Talvez esse seja um dos embaraços mais perigosos: mágoas e falta de perdão. Há muita gente que perdeu a graça de Deus, a alegria da salvação por problemas mal resolvidos em seus relacionamentos.

Além disso, há realidades interiores que silenciosamente nos paralisam. A ansiedade, quando não é lançada sobre o Senhor, consome nossas forças. A tristeza, quando não encontra descanso em Deus, nos abate. O desânimo, quando alimentado, enfraquece nossa perseverança. Essas realidades não são pecados em si, mas se tornam embaraços quando passam a dominar o coração e a definir a nossa caminhada.

Diante de tudo isso, é necessário lembrar que Deus não nos chamou para viver essa jornada confiando em nossa própria força. É Ele quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar. É Ele quem nos aperfeiçoa, fortalece e sustenta. Há um convite constante à dependência. Mas essa dependência não anula a nossa responsabilidade.

Somos chamados a vigiar, a discernir, a cuidar daquilo que permitimos entrar e permanecer em nosso coração. A Palavra que recebemos precisa ser guardada, cultivada, vivida. Não podemos tratá-la com negligência. Nossas escolhas, ainda que pequenas, vão moldando a nossa caminhada. Decisões aparentemente simples podem, ao longo do tempo, se tornar pesos significativos.

A advertência do escritor aos Hebreus é clara: essa corrida exige perseverança. Não se trata de um esforço momentâneo, mas de uma constância que se revela tanto na vida privada quanto na vida em comunidade. Somos chamados a permanecer, a continuar, a não desistir, mesmo quando o caminho se torna difícil.

E não estamos sozinhos. Há uma grande nuvem de testemunhas ao nosso redor. Homens e mulheres que viveram pela fé, que enfrentaram desafios, que renunciaram a muitas coisas para permanecer firmes. Noé creu quando tudo ao seu redor apontava o contrário. Abraão caminhou como peregrino, olhando para uma pátria que ainda não via. Suas vidas testemunham que vale a pena perseverar. (Hebreus 11:7-10).

E mais do que isso: o próprio Cristo, para quem olhamos, não apenas nos chama, mas nos sustenta. Ele não é um observador distante, mas o fundamento da nossa fé. Ele é quem nos conduz até o fim.

Por isso, a exortação permanece tão atual quanto necessária: desembarace-se. Abandone todo peso. Reavalie aquilo que tem ocupado o seu coração. Há coisas que não são pecaminosas, mas estão atrasando a sua caminhada. Há excessos que precisam ser ajustados, prioridades que precisam ser reorganizadas, áreas que precisam ser rendidas novamente ao Senhor.

A vida neste mundo exige de nós muitas ocupações, mas nenhuma delas pode ocupar o lugar que pertence a Deus. Podemos lidar com responsabilidades, projetos, desafios e até mesmo com sofrimentos e perseguições, mas nada disso deve se tornar maior do que o chamado de Cristo sobre nós.

Porque, no fim, essa corrida não é sobre começar bem, mas sobre terminar bem.

E isso só é possível quando mantemos os olhos firmemente em Jesus, o autor e consumador da nossa fé.
Para refletir: Qual é o “peso” que hoje tem atrasado a sua caminhada?
O que precisa ser colocado aos pés da cruz para que você volte a correr com leveza e perseverança?

Compartilhe conosco nos comentários.