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Ricos Em Recursos, Pobres de Espírito

Uma Advertência Pastoral à Igreja de Laodiceia e à Igreja de Nossos Dias.

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei até ele, e com ele cearei, e ele comigo.” (Apocalipse 3:20)

À porta da igreja de Laodiceia estava Jesus, batendo e desejando entrar naquela comunidade para ser novamente conhecido por ela. Essa é a última das sete igrejas da Ásia mencionadas em Apocalipse, capítulos 2 e 3. Laodiceia situava-se no vale do Lico, próxima a Colossos e Hierápolis (Cl 4:13). Uma região estratégica e economicamente privilegiada.

Era uma cidade riquíssima, um importante centro bancário da Ásia Menor, famosa por sua indústria têxtil, especialmente pela produção de lã negra e conhecida por sua escola de medicina, que produzia um colírio muito valorizado. Apesar de toda essa prosperidade, Laodiceia enfrentava um problema sério: a falta de água potável. A água chegava à cidade por aquedutos vindos de fontes termais distantes e, ao chegar, estava morna e carregada de minerais, muitas vezes provocando náusea. Esse contexto nos ajuda a compreender a metáfora usada por Cristo:
“Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:16).

Os laodicenses conheciam bem a sensação de estarem sedentos e terem de ingerir água morna, causando náuseas imediatas. Não foi difícil para aquela igreja compreender a gravidade de sua condição espiritual ao ouvir essa mensagem transmitida por meio do apóstolo João. Eles não tinham uma identidade definida: não eram frios nem quentes. Por isso, receberam uma das mais duras advertências do Senhor: “vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:16).

A mensagem dirigida à igreja de Laodiceia trata, essencialmente, da perda de identidade espiritual associada à autossuficiência. Eles desfrutavam de prosperidade material e abundância de recursos e, ironicamente, essa mesma prosperidade contribuiu para sua pobreza espiritual. Não estavam sob perseguição, nem foram acusados de heresia doutrinária. O problema estava no modo como viviam: acomodados, confiantes demais e profundamente influenciados pela cultura ao redor. A consequência foi um conceito elevado de si mesmos, expresso em suas próprias palavras:
“Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta” (Apocalipse 3:17).
E como essa condição se aproxima da nossa realidade!

Ao olharmos para a igreja de Laodiceia no final do primeiro século, é difícil ignorar o paralelo com a igreja de nossos dias e os perigos que nos rondam. Assim como eles, vivemos um tempo de abundância de recursos como em nenhuma outra época da história. No entanto, em muitos contextos, experimentamos uma preocupante pobreza espiritual no que diz respeito ao testemunho e à qualidade da vida cristã. A igreja de hoje não está imune a esse diagnóstico:
“E não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:17b).

Na repreensão dirigida àquela igreja, Jesus deixa claro que está do lado de fora, mas ainda assim se oferece para entrar. Ele deseja cear com eles. Trata-se de um convite à intimidade: sentar-se à mesa com o Mestre, olhar em seus olhos, ouvir sua voz e alegrar-se em sua presença. A mensagem à igreja de Laodiceia é dura e confrontadora, pois atinge a insensibilidade espiritual, o orgulho e a sutil contaminação do mundo que, muitas vezes, permitimos entrar em nossas vidas e famílias, tornando-nos espiritualmente mornos.

A boa notícia é que essa carta não é apenas uma repreensão, mas também um chamado gracioso ao arrependimento e à restauração. O próprio Senhor aponta o caminho de volta:
“Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas.” (Apocalipse 3:18).

Nada pode substituir o relacionamento vivo e a dependência do Espírito na vida de um filho de Deus, nem mesmo as bênçãos recebidas. Sem querer generalizar, é possível perceber que, em muitos casos, ao melhorarem de vida, alguns cristãos perderam a simplicidade do relacionamento com o Senhor e do serviço à igreja. Prosperaram materialmente, mas empobreceram espiritualmente. Foram abençoados e, em vez de servirem melhor, tornaram-se autossuficientes. Embora a repreensão seja grave e carregue uma advertência séria, ela vem acompanhada de uma profunda declaração de amor:
“Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.” (Apocalipse 3:19).

É claro que podemos aplicar essa mensagem à igreja como um todo, mas não devemos esquecer que, individualmente, somos membros do corpo de Cristo. A aplicação da Palavra começa em cada um de nós. Com humildade diante do Senhor, precisamos nos perguntar se esse diagnóstico não pode, em alguma medida, ser aplicado às nossas próprias vidas. Será que, com o passar do tempo, não nos afastamos do primeiro amor? Não nos tornamos autossuficientes, confiando mais em nossos recursos do que na providência de Deus? Já não oramos como antes, nem meditamos na Palavra com a mesma fome do início? Em muitos casos, nos perdemos em ambições e projetos pessoais, e o Senhor e o seu Reino passaram a ocupar um plano secundário.

Quando a igreja perde o poder espiritual e o testemunho, isso revela que, individualmente, negligenciamos nossa relação com Deus. Se não estamos bem como pessoas diante do Senhor, como a igreja poderá estar bem? Por isso, a exortação feita à igreja de Laodiceia continua válida para nós:
“Sê, pois, zeloso e arrepende-te.”
Não há outro caminho para mudança que não passe por zelo espiritual e arrependimento sincero.

Não creio que os recursos que o Senhor nos permite possuir sejam incompatíveis com uma vida espiritual vibrante e frutífera. O problema não são as bênçãos, mas o lugar que ocupam em nosso coração. Jesus ensinou que onde estiver o nosso tesouro, ali estará também o nosso coração (Mateus 6:21). Mais cedo ou mais tarde, aquilo que mais amamos ocupará o centro da nossa vida, seja o Senhor e o seu Reino, seja nossas ambições e projetos pessoais.

No mesmo capítulo de Mateus, Jesus confronta nossos valores, escolhas e prioridades ao afirmar:
“São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!” (Mateus 6:22–23).

Não podemos tratar como simples deslize aquilo que o Senhor chama de trevas. Ou ajustamos nossos valores e prioridades à luz do Reino, ou permanecemos em uma condição espiritual que desagrada profundamente ao Senhor, assim como ocorreu com a igreja de Laodiceia.

Caminhando para o final desta reflexão, precisamos nos perguntar com sinceridade: qual acesso Cristo tem hoje em nossas vidas? Ele continua tendo livre entrada, ou está do lado de fora, batendo à porta, como fez com os irmãos de Laodiceia? Seja qual for a nossa condição atual, essa carta é uma dura advertência às igrejas e aos cristãos negligentes, mas também uma oferta graciosa de arrependimento, reconciliação e mudança. Ao bater à nossa porta, Cristo nos oferece comunhão renovada. Abrir a porta é dizer “sim” Àquele que nos ama e deseja cear conosco, restaurando a verdadeira intimidade.