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Sede no Deserto, Distração na Abundância

“No meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito durante as vigílias da noite. Porque tu tens sido o meu auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto de alegria.” (Salmos 63:6–7).

Este salmo de Davi foi escrito, provavelmente, em um período de exílio no deserto de Judá, quando ele fugia de Absalão, seu próprio filho. Em meio à instabilidade, à dor e à incerteza, Davi encontrava, nas vigílias da noite, descanso e refúgio na meditação em Deus. Quase todo o salmo é uma expressão intensa de anseio pela comunhão com o Senhor.
Expressões como: “eu te busco ansiosamente”, “a minha alma tem sede de ti” e “o meu corpo te busca como em terra seca e exausta, onde não há água” revelam que Davi não estava simplesmente à procura de soluções para seus problemas. Ele havia transformado o relacionamento com Deus em um verdadeiro oásis de comunhão e descanso, algo que ia muito além da busca por respostas. Ele encontrou intimidade.

O salmista nos conduz a uma reflexão profunda sobre como temos nos relacionado com Deus, especialmente quando consideramos as circunstâncias em que esse salmo foi escrito. Para alguns, Deus torna-se apenas útil, aquele que resolve problemas, traz conforto e facilita a vida. Para outros, porém, como no caso de Davi, respostas e conforto, por si só, não eram suficientes. Havia um desejo mais profundo: comunhão, relacionamento e conhecimento de Deus. Existia uma inquietação santa, uma sede real pela presença do Senhor.
No versículo 2, Davi declara:

“Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.”

Cada afirmação do salmista nos leva a examinar os reais motivos pelos quais dobramos nossos joelhos, meditamos na Palavra e nos relacionamos com a igreja. Fazemos isso por obrigação ou por uma contemplação reverente daquele que nos fascina? “Eu te contemplo para ver a tua força e a tua glória.” A impressão é que o exílio não o incomodava tanto quanto a percepção da sede da sua própria alma, uma sede que ansiava desesperadamente por seu Criador.

Nós, cristãos modernos, estamos cercados por uma abundância de recursos que, muitas vezes, nos envolve em uma atmosfera de falsa espiritualidade. Temos Bíblias em diversas versões, livros, filmes, músicas e cantores evangélicos para todos os gostos. Pregadores e mestres se multiplicam nas redes sociais, oferecendo temas que despertam curiosidade e alimentam o vício pela novidade, algo tão característico da igreja dos nossos dias. O resultado, muitas vezes, é muito entretenimento, muitas distrações e pouco fruto no que diz respeito à verdadeira comunhão.
Aquilo que, para muitos, parece sinal de bênção e avanço pode ser, na perspectiva divina, um grande empecilho para um relacionamento mais profundo com Deus. Não afirmo que essas coisas não tenham valor algum. Contudo, para quem busca uma verdadeira solitude espiritual, esse excesso de estímulos pode se tornar prejudicial à profundidade da vida com Deus.

Digo isso porque já fomos melhores tendo muito menos. Talvez os irmãos mais jovens não compreendam plenamente essa afirmação, mas os da minha geração certamente entendem. A paixão, o ardor e o desejo sincero de conhecê-lo eram o que nos moviam. Passar longos períodos em oração e jejum, gastar tempo com a Palavra, participar das reuniões com expectativa e sair para anunciar o evangelho fluíam naturalmente de uma relação vertical intensa e viva.

O salmista fala de anseio por comunhão no deserto; nós, por outro lado, frequentemente nos perdemos na abundância de conteúdos. São pregações, músicas e programações que nos mantêm sempre ocupados, mas muitas vezes superficiais. Vídeos, podcasts, eventos e shows se acumulam. A situação é tão crônica que, por vezes, percebo mensagens sendo repassadas sem qualquer reflexão pessoal, apenas copiadas e coladas.
E os devocionais diários? Muitos se tornaram meramente motivacionais, vazios de profundidade, revelando claramente que não nasceram de um lugar de busca, silêncio e escuta diante de Deus. Não desejo generalizar, mas o problema que enfrentamos é mais sério do que imaginamos.
A comunhão íntima com Deus é fruto de uma decisão que envolve renúncias pessoais e uma escolha apaixonada por aquele que é o nosso Amado. As circunstâncias tornam-se secundárias quando a alma está verdadeiramente desejosa da presença do Senhor. No Salmo 84, o salmista afirma que um dia na presença de Deus vale mais do que mil em qualquer outro lugar. Essa não é uma figura de linguagem vazia, mas o testemunho de alguém que, no silêncio, discerniu as necessidades mais profundas do seu coração.
Caminhando para o final dessa reflexão, volto ao Salmo 63. No versículo 5, Davi declara:

“Como de banha e de gordura farta-se a minha alma; e, com júbilo nos lábios, a minha boca te louva.”

A imagem aqui é de um banquete abundante, do qual se sai plenamente satisfeito. Davi usa essa linguagem para comunicar o quão saciados ficam aqueles que encontram no relacionamento com Deus a sua verdadeira plenitude. Essa experiência gera louvor espontâneo, júbilo que brota do coração: “com júbilo nos lábios, a minha boca te louva”.
Creio que precisamos de discernimento espiritual para perceber a condição que nos cerca. Nada deve ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus em nossos corações, nem mesmo coisas que carregam aparência de piedade ou religiosidade. A experiência de Davi no deserto, suas escolhas e paixões, confrontam-nos e nos ajudam a avaliar como temos nos relacionado com o nosso Deus.
Encerro com as palavras do profeta Jeremias, que expressam o espanto do próprio Deus diante da troca feita por Seu povo: abandonaram a fonte de água viva por algo sem valor. A pergunta permanece ecoando até hoje: será que muitos de nós temos feito o mesmo?

“Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito.
Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai estupefatos, diz o Senhor.
Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.”
(Jeremias 2:11–13)