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Quando o Amor se Torna a Maior Pregação do Evangelho

“Seja constante o amor fraternal.” (Hebreus 13:1)

Talvez um dos maiores antídotos contra uma vida cristã decadente, confusa e centrada em si mesma seja a prática constante do amor fraternal. Desde a queda, o coração humano inclina-se naturalmente para o egoísmo e para a autopreservação. O evangelho, porém, realiza o movimento inverso: tira-nos do centro para colocar Cristo no centro de nossa vida e, consequentemente, o próximo diante dos nossos olhos.

As almas mais adoecidas e insatisfeitas geralmente são aquelas que vivem apenas para si e pouco ou nada repartem com os outros. Quando o amor de Cristo governa o coração, passamos a enxergar as necessidades daqueles que caminham ao nosso lado. Nesse processo, descobrimos que muitos dos nossos problemas deixam de ocupar o lugar central que antes ocupavam. O amor nos liberta da prisão do egoísmo e nos conduz à alegria de servir.

O escritor da carta aos Hebreus dirige-se, muito provavelmente, a uma comunidade de cristãos de origem judaica que enfrentava perseguições, sofrimento e profundo desânimo. Ao longo da carta, ele apresenta a superioridade de Cristo, exorta os irmãos à perseverança e os lembra da esperança da cidade celestial. É significativo, portanto, que, ao iniciar a parte prática de sua exortação, a primeira recomendação não seja acerca de dons, liderança ou conhecimento, mas sobre o relacionamento entre os irmãos:

“Seja constante o amor fraternal.” (Hebreus 13:1).

Toda a rica teologia apresentada na carta deveria produzir uma comunidade marcada pelo amor. O conhecimento de Cristo sempre precisa resultar em uma vida semelhante à dEle.

Quem serve leva o amor para um plano prático. O amor cristão jamais permanece apenas no campo das intenções ou dos sentimentos. Ele assume forma concreta. Torna-se cuidado, hospitalidade, oração, generosidade, perdão, serviço e disposição para carregar os fardos dos irmãos. Quem ama aproxima-se. Quem ama reparte. Quem ama serve. Por isso, o apóstolo Paulo afirma que o amor “não procura os seus próprios interesses” (1 Coríntios 13:5). Da mesma forma, exorta a igreja: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gálatas 6:2). O verdadeiro amor sempre desloca o coração do “eu” para o “outro”.

É interessante observar que o próprio escritor de Hebreus não deixa essa exortação no campo das ideias. Nos versículos seguintes ele mostra como o amor fraternal se manifesta na prática: por meio da hospitalidade (Hebreus 13:2), da lembrança dos presos e dos que sofrem (Hebreus 13:3) e da disposição de fazer o bem e repartir com os necessitados (Hebreus 13:16). O amor bíblico nunca permanece apenas nas palavras; ele sempre encontra uma maneira de servir.

Ao sermos inundados pelo amor de Cristo, não conseguimos mais viver exclusivamente para nós mesmos. João afirma: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 João 4:19). O amor cristão não nasce do esforço humano, mas da experiência transformadora da graça de Deus. Quanto mais compreendemos o amor com que fomos alcançados, mais naturalmente amamos aqueles que foram alcançados pela mesma graça.

Foi o próprio Senhor Jesus quem declarou aos seus discípulos:

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (João 13:35).

Recebemos dEle a ordem de anunciar o evangelho a toda criatura. Entretanto, quando esse evangelho é confirmado por uma vida de amor prático, nossa mensagem adquire uma credibilidade que nenhuma eloquência pode produzir. O mundo pode questionar nossos argumentos, mas dificilmente conseguirá negar a realidade de uma igreja que ama como Cristo amou.

Jesus também jamais separou o amor a Deus do amor ao próximo. Ao resumir toda a Lei, uniu os dois maiores mandamentos (Mateus 22:37-40). Da mesma forma, o apóstolo João afirma que é impossível amar verdadeiramente a Deus enquanto permanecemos indiferentes ao nosso irmão (1 João 4:20-21). O amor ao próximo não é um complemento da fé cristã; é uma de suas evidências mais claras.

Em um mundo que valoriza cada vez mais o individualismo, a competição e o interesse próprio, o amor fraternal constante continua sendo um poderoso testemunho da obra redentora de Cristo. Ele nos desafia a colocar o bem-estar do outro acima dos nossos interesses, a praticar a empatia, a perdoar, a caminhar ao lado dos que sofrem e a repartir com alegria aquilo que Deus nos concedeu.

Na carta aos Romanos, Paulo exorta:

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal.” (Romanos 12:10).

Pedro, por sua vez, escreve:

“Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente.” (1 Pedro 1:22).

Como permanecer indiferente diante de uma exortação tão intensa? É possível afirmar que pertencemos a Cristo e, ao mesmo tempo, ignorar as necessidades, as dores e os sofrimentos daqueles que caminham conosco? Como ler as palavras de Pedro, “amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente,” sem permitir que elas confrontem profundamente nossos comportamentos?

Aquela pequena comunidade de cristãos foi desafiada a manter constante o amor fraternal. Em meio às perseguições, foi chamada a tirar os olhos de si mesma para servir uns aos outros. E nós?

Tenho me solidarizado com meus irmãos?
Tenho me importado com seus sofrimentos e necessidades?
Tenho orado por eles e buscado servi-los para aliviar sua dor?
Tenho sacrificado meu conforto para expressar o amor de Cristo, ou minha comodidade continua sendo mais importante?

Essas perguntas exigem respostas honestas. Dependendo de como as respondemos, teremos um bom diagnóstico da saúde da nossa fé e do quanto nos identificamos, de fato, com Cristo.

Que o amor de Cristo nos constranja de tal maneira que o mundo veja, através de nós, a mais poderosa proclamação do evangelho: o amor em ação. Um povo redimido que serve como seu Senhor serviu, entregando a própria vida pelos outros.

Talvez o mundo não seja convencido primeiramente pela eloquência dos nossos sermões, mas pela realidade do amor que demonstramos uns aos outros. Quando a igreja vive o evangelho que anuncia, sua mensagem torna-se irresistivelmente poderosa.

Amar Sem Preço

A linha entre o amor e a indiferença parece ser muito tênue, quase imperceptível, pois às vezes, tratamos com desprezo aquele a quem dizemos amar. Não é difícil o amor transformar-se em desprezo, a satisfação em insatisfação e a alegria em tristeza. É claro que o amor manifesta-se de várias maneiras, porém o amor que mais conhecemos é aquele que alimenta e supre os desejos e necessidades de sermos amados e saciados em nossos anseios. Não é o amor doação, altruísta que mais conhecemos, mas o amor que aprendeu a receber sempre, e só consegue corresponder quando é correspondido.
Este tipo de amor não suporta crises nem decepções, exige fidelidade total e não aceita facilmente os erros do outro. É o “amor” que se alimenta da exploração do outro e por isso é tão frágil como uma taça de cristal, que ao mais leve impacto despedaça-se em centenas de cacos. O amor que mais conhecemos nunca encontra a verdadeira paz e satisfação porque ele necessita sempre receber para poder dar de volta, e nem sempre é correspondido à altura de suas expectativas em relação ao outro. Na verdade, o amor do outro nunca é suficiente, está sempre lhe devendo, não importa quanto seja feito ou quanto o outro seja limitado.
Este tipo de amor jamais aprendeu a lidar com o sofrimento, por entender que o outro deve sempre lhe promover bem-estar com os mais belos gestos e demonstrações de sacrifício em prol de sua felicidade. Se o outro erra com ele, logo transforma-se em desprezo e frustração, desmorona-se fácil como um lindo castelo de areia atingido pelas ondas.
Este amor não se aprofunda nos gestos de perdoar, tolerar, exercer misericórdia ou ter empatia. Tudo depende única e exclusivamente do fato de ser correspondido, caso contrário, nunca se dobrará. Na verdade, estamos falando do amor ou do egoísmo disfarçado de amor? Parece-me que aprendemos a nutrir nosso ego às custas do outro. Amar sem preço algum é o que mais gostamos. Nenhum sofrimento, nenhuma frustração, nenhum deslize é permitido aos que só conhecem este amor. E ele está sempre pronto a ser amado.
Ser paciente com as debilidades do outro, benigno para promover saúde ao relacionamento, não ser orgulhoso, mas ter coragem de buscar a paz, não buscar os interesses próprios, mas o bem-estar do outro e não guardar rancor é certamente condicionado ao tanto de reciprocidade que o mesmo recebe. Enfrentar crises, conviver com as imperfeições do outro sem querer modificá-lo, encarar o fato de que o outro jamais terá a perfeição que ele tanto exige e mesmo assim amá-lo, torna-se um exercício quase impossível para os praticantes deste “amor”.
Nossa sociedade transformou o amor numa mera Química, esvaziou seu verdadeiro conteúdo, relegando-o a um objeto de consumo ou mesmo confundindo-o com o prazer carnal momentâneo. Encontramos na palavra de Deus a maior expressão do amor. Em João 3.16, Lemos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu…”Deus amou tanto que deu”. Deus é amor! Estende a sua misericórdia a maus e bons, a justos e injustos e, embora deteste a injustiça, essa é a sua essência, amar.Jesus disse:
Mateus: 5. 43. Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. 44. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; 45. para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.”
Essa expressão de amor vai além do amor que busca recompensa ou satisfação pessoal, está diametralmente oposta ao amor que conhecemos e praticamos, o jeito de amar de Deus, o qual Ele deseja que aprendamos.
1Coríntios: 13. 4. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, 5. não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; 6. não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; 7. tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Amar sem preço algum é uma ilusão dos que não entenderam o que ele é. Amar é dar, sacrificar, perdoar. É conviver apesar das diferenças sem querer modificar. Amar é suportar, andar mais uma milha, ser bondoso. Amar é ver mais que defeitos, ver que o outro tem virtudes que me faltam e me completam e que talvez algumas coisas no outro nunca mudarão, mesmo assim, é o preço que teremos que pagar para sermos como o nosso Deus é.