Senhor, abra meus olhos!
“Então, parando Jesus, chamou-os e perguntou: Que quereis que eu vos faça? Responderam: Senhor, que se nos abram os olhos. Condoído, Jesus tocou-lhes os olhos, e imediatamente recuperaram a vista e o foram seguindo.” (Mateus 20:32-34).
Descobertas de um homem cego
Na escuridão da minha alma, minha mente não encontra descanso. Pergunto-me sobre o destino que me foi dado. Há tantas perguntas sem respostas, e dentro de mim cresce um desejo profundo de ver.
Não há cores em minha existência, apenas escuridão.
Ouço vozes, sinto o vento, o calor do sol, os pingos da chuva… mas não consigo ver.
Não sei como é o rosto de minha mãe, nem o semblante de meu pai. Tento imaginá-los por seus gestos, por suas vozes, mas tudo o que tenho são sombras construídas pela mente.
Na escuridão da minha vida, há mais pessoas que sentem pena de mim do que aquelas que me oferecem verdadeira amizade. Não tenho amigos. Não consigo ver.
Por quê? Essa pergunta me atormenta. O que fiz? Onde errei? Não encontro respostas. Há um Deus? E, se há, por que permitiu condição tão sofrível a um homem, se todos insistem em dizer que Ele é bom?
Não consigo ver… e estou condenado à mendicância. Dependo de favores constantes, torno-me um peso, e isso consome minha alma.
Oscilo entre a esperança e a revolta. Não consigo ver.
Ouço murmúrios de que Deus se fez homem e anda entre nós. E penso: como pode alguém ser tão cruel a ponto de criar tais histórias? Esquecidos somos. Deus não se lembra de nós. Que grande ilusão!
Mas, de repente, algo muda.
Boatos de um homem que percorre cidades fazendo o bem. Curando enfermos, restaurando vidas. Como é mesmo que o chamam? Jesus, o Nazareno.
Ah, se eu pudesse encontrá-lo… talvez me desse respostas. Talvez um milagre reacendesse em mim alguma esperança esquecida.
Mas quem olharia para mim? Um cego, pobre, maltrapilho…
Esperem… que barulho é esse?
Ouço vozes ao longe. Há alvoroço, agitação. Alguém diz que Ele está passando por aqui. Tão perto… tão próximo… tão real!
E, sem pensar, algo rompe dentro de mim.
— Senhor! Filho de Davi, tem compaixão de mim!
Grito com força, com choro… e com uma fé que eu nem sabia que ainda existia em mim.
Então, algo acontece.
Sinto Sua presença diante de mim. Forte, santa, indescritível. E, mesmo sem enxergar, tenho plena certeza: Ele me vê. Seus olhos repousam sobre mim.
E, naquele instante, algo mais profundo é revelado.
Percebo que, durante todos esses anos, não era apenas a escuridão dos meus olhos que me aprisionava. Havia uma cegueira ainda mais dolorosa: a da minha alma. O vazio do meu coração, a superficialidade das minhas conclusões, a dureza do meu interior.
Tu nunca estiveste ausente. Nunca foste indiferente.
Mas eu… eu não conseguia te ver.
E, agora, diante de Ti, compreendo: mais do que visão, eu precisava de luz.
Então ouço tua voz, tão simples e tão profunda: “Que queres que eu te faça?”
Tua pergunta, que antes pareceria óbvia, agora transborda sentido. Não se trata apenas de abrir meus olhos, mas de restaurar o meu ser.
Vieste para curar a cegueira da minha alma, para iluminar meu coração antes mesmo de me dar visão.
E, quebrantado, eu respondo:
— Senhor, que eu veja.
Cura minha visão… e ilumina o meu coração.
E então compreendo:
Ele veio para isso.
Para que os que não veem vejam… e para que aqueles que pensam ver reconheçam a sua própria cegueira. (João 9:39).


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