Perdoar o Imperdoável: Quando o Evangelho Molda o Coração.
“E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” (Mateus 6:12).
Poucas coisas revelam tanto a profundidade do evangelho em nós quanto a forma como reagimos quando somos feridos. Talvez muitos de nós já tenhamos ouvido a célebre frase: “o que fulano fez é imperdoável.”
Há alguns anos, uma pequena comunidade religiosa nos Estados Unidos chamou a atenção do mundo inteiro por causa de uma tragédia que abalou profundamente seus lares. No dia 2 de outubro de 2006, na pequena localidade de Nickel Mines, no estado da Pensilvânia, um homem invadiu a West Nickel Mines School, uma simples escola de uma comunidade Amish, e disparou contra dez meninas com idade entre seis e treze anos. Seis meninas morreram e quatro ficaram feridas. Cinco das vítimas faleceram no local ou logo após o ataque, enquanto uma sexta vítima faleceu posteriormente. Logo após, o homem tirou a própria vida.
A notícia rapidamente se espalhou e provocou indignação, tristeza e perplexidade. Era impossível ouvir aquela história sem se indignar. Crianças inocentes haviam sido atingidas por um ato de maldade difícil de compreender. Diante de algo assim, o que normalmente se espera é revolta, desejo de justiça e, muitas vezes, um profundo anseio por vingança.
Mas o que aconteceu nos dias seguintes surpreendeu o mundo.
Em vez de discursos inflamados ou de palavras carregadas de ódio, aquela comunidade escolheu um caminho completamente diferente. Pais que haviam perdido suas filhas e famílias que carregavam uma dor quase indescritível decidiram fazer algo que parece quase impossível para o coração humano: decidiram perdoar.
Alguns deles foram até a casa da família do homem que havia cometido o crime para consolá-los. Outros compareceram ao funeral dele. Não estavam ali para justificar o mal que havia sido feito, nem para diminuir a dor que carregavam. Estavam ali porque acreditavam que o perdão não é apenas uma virtude admirável, mas um caminho que nasce do próprio coração do evangelho.
Aquela atitude era a aceitação das palavras de Jesus sem nenhuma interpretação, apenas obediência e rendição: “Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6:15).
Aquele comportamento incomum surpreendeu jornalistas, estudiosos e pessoas do mundo inteiro. Muitos se perguntavam como alguém poderia responder assim diante de uma tragédia tão profunda.
Na verdade, aquela atitude não nasceu de uma força humana extraordinária, mas de uma compreensão profunda do evangelho.
A resposta estava na fé que moldava aquela comunidade. Eles haviam aprendido, ao longo da vida, que o perdão não depende da gravidade da ofensa, mas da grandeza da graça que recebemos de Deus. O perdão de Deus não nos foi concedido quando éramos bonzinhos ou quando havíamos ajustado a nossa vida. Não! O apóstolo Paulo declara: “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8).
Quando entendemos o quanto fomos perdoados e em quais circunstâncias, o perdão deixa de ser apenas uma ideia bonita e, às vezes, incômoda, e se torna um caminho que impacta profundamente a forma como vivemos. E é exatamente sobre isso que precisamos refletir.
O perdão é uma ruptura com todos os conceitos humanos e religiosos. Ele traz consigo uma força devastadora que derruba as maiores barreiras e cura as mais profundas mágoas.
O perdão restaura relacionamentos e reconstrói laços fragmentados. Ele promove o abraço entre pais e filhos, maridos e esposas, irmãos e irmãs, devolvendo a paz a corações que antes estavam marcados pela dor.
O perdão é mais forte que as ondas do mar em sua fúria, mais poderoso que terremotos e maremotos. Ele aplaina caminhos tortuosos, arrancando o ódio, as mágoas e os ressentimentos.
Restaura famílias destruídas e amigos feridos. Devolve o brilho no olhar e traz de volta a paz ao coração. Ele encerra cobranças intermináveis e libera o outro para viver em paz.
O verdadeiro perdão restaura até mesmo a saudade de estar perto, pois quem perdoa se torna como uma criança que já não se apega à dor que sofreu.
O perdão é como uma brisa suave em dias muito quentes, quando sentimos que iremos sufocar. Ele chega calmo, nos envolve e nos refrigera. Ele cura quem ofende e devolve vida àquele que perdoa. Não há ódio que resista ao seu poder, nem ferida que não possa ser por ele sarada.
As prisões da alma se abrem para ambos, e os caminhos da vida se tornam mais amplos. Quem perdoa se liberta das garras de Satanás e da pobreza da alma humana, porque aprendeu com o próprio Deus o caminho da misericórdia.
Ele, sendo santo e perfeito, decidiu nos perdoar sem que lhe déssemos nada em troca. Isso é grandeza.
O apóstolo Paulo nos exorta: “Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” (Efésios 4:32).
Esse perdão não nasceu da indiferença de Deus ao pecado, mas do amor demonstrado na cruz, onde Cristo carregou sobre si aquilo que jamais poderíamos pagar.
O perdão é um sopro do divino no coração ferido. Ele nos envolve numa atmosfera de amor. É o coração do pastor que vai atrás da ovelha que se extraviou em sua rebeldia, coloca-a nos braços e a traz de volta para casa (Mateus 18:12–14).
É também a disposição de restaurar um relacionamento quebrado, usando todos os meios possíveis para alcançar a reconciliação, mesmo quando o outro ainda não reconhece o seu erro (Mateus 18:15–22).
É a liberação de uma dívida impagável por um ato de misericórdia e bondade àquele que nos causou grande prejuízo (Mateus 18:23–27).
Perdoar é ser como Jesus, que perdoou aquele que o traiu com um beijo e foi ao encontro de quem o negou justamente no momento em que Ele estava mais fragilizado.
O perdão é forte, é definitivo. E quando ele floresce em nosso coração, o Deus eterno se expressa por meio de nós, tornando visível ao mundo a beleza da sua graça.
A Ele seja a glória para sempre. Amém.
“E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas.” (Marcos 11:25).
Existe alguma ferida em seu coração que precisa ser levada diante de Deus?




Lembrei do caso do casal americano que recebeu em casa um dos assassinos do filho, liberando perdão para o mesmo.
https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/pais-cristaos-perdoam-assassino-do-filho-nos-o-vimos-como-jesus-o-ve.html