O Cristo Domesticado: Quando a Cultura Reescreve o Evangelho

“A visão de Cristo que abrigas
É da minha visão a maior inimiga;
A tua tem um grande nariz torto como o teu,
A minha tem um nariz arrebitado como o meu.
Ambos lemos a Bíblia noite e dia,
Mas tu lês preto onde eu leio branco.”

(William Blake, O evangelho eterno).

Já perceberam como, em nossos dias, Jesus é amplamente citado, porém profundamente reinterpretado? Fala-se muito de Cristo, mas nem sempre do Cristo revelado nas Escrituras. As versões de Cristo se multiplicam para atender visões particulares que, muitas vezes, não condizem com o Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado. O verso do poema de William Blake ilustra com precisão essa realidade: dois homens leem a mesma Bíblia, noite e dia, mas enxergam Cristo de maneiras opostas no mesmo texto. O problema não está na Escritura, mas no olhar de quem a lê.

Essa imagem é perturbadora porque revela algo desconfortável: é possível ler a Bíblia com frequência, zelo e até piedade, e ainda assim construir uma visão de Cristo moldada à nossa própria imagem. Um Cristo que se parece demais conosco deveria, no mínimo, nos causar temor.

O Cristo que criamos e o Cristo que se revela.

O coração humano sempre teve dificuldade em se submeter plenamente a Deus. João Calvino descreveu o coração como uma “fábrica de ídolos”, e isso inclui ídolos teológicos. Muitas vezes, não negamos Cristo abertamente; apenas o reconstruímos. Retiramos dele aquilo que nos confronta e destacamos o que nos conforta.

Assim, surgem “cristos” moldados pela cultura, pela ideologia, pela experiência pessoal ou pelas conveniências do momento. Um Cristo que existe para servir nossos projetos, aliviar nossas culpas ou garantir bem-estar, mas que já não governa com autoridade. Ele se torna funcional, útil, manejável, porém deixa de ser soberano. Nesse processo sutil, Cristo não é mais o Senhor diante de quem nos rendemos, mas um recurso espiritual ao qual recorremos.

O apóstolo Paulo é enfático em sua carta aos romanos, ao dizer: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10:9).

Se Ele não é Senhor, não pode ser salvador.

Além disso, esse Cristo reconstruído quase sempre é um Cristo fragmentado. A cultura escolhe quais aspectos de Jesus deseja preservar e quais prefere silenciar. Celebra-se o Cristo amoroso, mas evita-se o Cristo santo; acolhe-se o Mestre compassivo, mas rejeita-se o Senhor que chama ao arrependimento; aprecia-se o Jesus que acolhe, mas ignora-se o Cristo que julga. Não se nega sua existência, mas divide-se sua identidade.
Um Cristo que nunca confronta o pecado, que não exige arrependimento e que não chama à cruz dificilmente é o Cristo bíblico. É antes um reflexo do intérprete do que uma revelação do Espírito por meio da Palavra.

A Bíblia como espelho, não como espada

O poema de Blake aponta uma realidade dura: dois leitores, o mesmo texto, conclusões opostas. Isso nos lembra que a Bíblia pode ser lida de duas formas muito distintas. Ela pode ser recebida como espada que penetra e julga, ou reduzida a espelho que apenas confirma o que já pensamos.
Jesus advertiu os fariseus: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim; contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5:39–40).

Eles liam corretamente, mas resistiam ao Cristo que o texto revelava. Aceitavam partes da revelação, mas rejeitavam o Senhor que ela anunciava.
Quando a Escritura deixa de nos contrariar, de nos quebrantar e de nos conduzir ao arrependimento, algo está errado. A Palavra não foi dada para ser ajustada ao leitor, mas para ajustar o leitor à vontade de Deus.

A história da igreja como advertência constante.

Ao longo da história, as grandes distorções da fé cristã não surgiram da ausência da Bíblia, mas de leituras seletivas dela. Heresias antigas e desvios modernos compartilham o mesmo método: enfatizam certos textos e silenciam outros; exaltam aspectos de Cristo e ocultam sua totalidade.
Sempre que a igreja absolutiza sua própria leitura e perde a disposição de ser corrigida pela Palavra, Cristo deixa de ser Senhor e passa a ser instrumento de validação das idéias humanas.
A cruz é esvaziada, a glória é redefinida e o evangelho se torna funcional, não transformador. Um Cristo dividido gera uma fé superficial; um Cristo domesticado produz discípulos que não conhecem o custo do discipulado.

O Cristo que confronta o leitor.

O Cristo verdadeiro não cabe confortavelmente em nossos sistemas. Ele confronta nossa justiça própria, desmonta nossas certezas e expõe nossos ídolos. Paulo nos lembra que o “deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos” (2Co 4:4), e essa cegueira não se manifesta apenas na negação explícita de Cristo, mas também em versões distorcidas dele, versões que preservam o nome, mas esvaziam o senhorio.
Quando lemos a Bíblia corretamente, não saímos ilesos. Saímos menores, mais humildes, mais dependentes da graça. Se nossa leitura sempre termina com razão própria e nunca com arrependimento, talvez não estejamos vendo Cristo como Ele é, mas como gostaríamos que Ele fosse.
Como bem afirmou R. C. Sproul: “Um Deus que é totalmente santo não pode ser domesticado.”

Um Cristo moldado para não confrontar já não é o Cristo das Escrituras.

Um chamado à humildade espiritual.

A igreja de nossos dias precisa reaprender a se aproximar das Escrituras com temor. Precisamos abandonar a pretensão de controlar o texto e permitir que ele nos controle. O maior perigo não é rejeitar Jesus abertamente, mas substituí-lo silenciosamente por uma versão mais aceitável, mais palatável, mais funcional e, por isso mesmo, menos verdadeira.
Que o Senhor nos conceda graça para reconhecermos que não somos o padrão pelo qual Cristo deve ser compreendido. Antes, somos nós que precisamos ser continuamente conformados à imagem daquele que a Escritura revela: o Cristo inteiro, soberano, santo, que salva, confronta, corrige e transforma.

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