Saul e Davi
1Samuel 18:7-9 Enquanto dançavam, as mulheres cantavam: “Saul matou milhares, e Davi, dezenas de milhares”. Saul ficou muito irritado, com esse refrão e, aborrecido, disse: “Atribuíram a Davi dezenas de milhares, mas a mim apenas milhares. O que mais lhe falta senão o reino? Daí em diante, Saul olhava com inveja para Davi.” (NVI)
Não há nada mais destrutivo para aqueles que servem no ministério, que as necessidades emocionais de ter a primazia e a luta para se manter no poder, principalmente, em casos em que companheiros próximos a nós recebem destaque e honra, e nós não, estando a desenvolver o mesmo serviço. Se o homem chamado por Deus não entender claramente a quem ele está servindo, viverá em disputas constantes para se estabelecer. O versículo nove revela como alguns processos se desencadeiam causando rupturas nos relacionamentos: “Daí em diante, Saul olhava com inveja para Davi.” (NVI).
Vemos que o reconhecimento que Davi recebeu revelou os sentimentos de Saul, expondo sua miopia espiritual e seu coração cheio de disputas carnais. Saul, não apenas observava a ascensão e crescimento de Davi, mas começou a verbalizar sua insegurança, disfarçada de preocupação com o trono, criando a ideia de que Davi era um usurpador. Essa insegurança era demonstrada em comentários depreciativos, como muitas vezes vemos entre companheiros de ministério. Paulo sentiu na pele a dor da desconstrução de sua pessoa por aqueles que se diziam líderes da igreja em Corinto: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível.” 2Co 10:10. Ou seja, não há nada de mais nesse homem!
Ninguém está livre dessa patologia que envenena o coração e causa grandes danos no meio da igreja. E de qual patologia estou falando? Da loucura de homens chamados por Deus ao serviço ministerial, que acham que, o que receberam vem deles e não do Senhor, e por isso, estão dispostos a qualquer coisa para se manterem onde estão. Inclusive atirar lanças em seus companheiros. “E Saul atirou com a lança, dizendo: Encravarei a Davi na parede. Porém Davi se desviou dele por duas vezes.”
1Sm 18:11. Não há dúvidas de que o enfraquecimento de muitas igrejas, começam no coração dos seus líderes ou daqueles que estão investidos de autoridade.
João Batista, ao ver a comparação entre o seu ministério e o de Jesus, disse desejar que Cristo recebesse as honras e não ele. Lamentavelmente, certas fissuras nos relacionamentos ganham dimensão a partir de pessoas próximas, como no caso dos discípulos de João. Eles, talvez por ciúmes, ou pura carnalidade, incitaram João à competição com Jesus, “E foram ter com João, e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando, e todos vão ter com ele.” Jo 3:26. Essa sempre foi uma arma eficiente de satanás, usando pessoas próximas para despertar sentimentos competitivos nos corações, e com palavras e comentários sutis, potencializam situações que culminam em divisões. Algumas vezes, até por parentes próximos. Vejam o exemplo da mãe de Tiago e João, Mt 20:20-24, desencadeando os sentimentos mais destrutivos, contaminando a pluralidade ministerial. “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos.” Mt 20:24. Para se ter um coração despretensioso, não basta apenas andar com Jesus; é necessário aprender dele a sua humildade e mansidão, Mt 11:29-30. A motivação do coração é mais valiosa que a quantidade de serviço realizado, e permanecer no centro da vontade de Deus é mais gratificante que qualquer posição que possamos ocupar.
Paulo destaca o esvaziamento de Jesus, como um dos maiores exemplos a ser seguido e um antídoto contra o orgulho e o espírito faccioso na igreja. Filp 2:1-8. E, embora esse texto se aplique a todos os cristãos, é na vida dos líderes da igreja onde ele se torna mais eficiente, visto que não vemos grandes divisões a partir dos irmãos mais simples das congregações, mas de homens que têm liderança, carisma e inteligência para levar adiante seu projeto de poder.
No exercício ministerial, o apego à posição e a disputa carnal para mantê-la, pode mergulhar o líder no submundo das traições, deslealdades e divisões, causando danos irreversíveis na obra de Deus. Quando o coração está contaminado pela sedução do poder, o crescimento do outro torna-se em ameaça. Resistir a falsos mestres, proteger o rebanho dos obreiros fraudulentos e de homens que amam o poder apenas pelo poder, é tarefa de todo pastor de ovelhas, e por esse motivo, trará para si a fúria de alguns. Mas isso faz parte do trabalho dos que amam o rebanho.
Porém, devemos pedir o escrutínio do Espírito sobre nossas motivações, para que ele traga à luz qualquer sentimento de disputa, inveja ou competição com o meu companheiro de ministério. Se no íntimo, não estamos nos alegrando com o crescimento do outro, ou não reconhecendo que o Senhor, em sua soberana vontade, fez um depósito maior em meu companheiro que em mim, posso estar trilhando o caminho escorregadio da soberba e da sedução pelo poder. Que haja em nós um profundo sentimento de que apenas o nosso mestre Jesus seja visto e engrandecido por meio daquele a quem ele escolher.
“O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua.” Jo 3:29-30




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