O Zelo que Mata. Uma Advertência de Jesus à Liderança Religiosa
“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas, porque percorrem terra e mar para fazer um convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês.” (Mateus 23:15)
Uma das características centrais dos discípulos de Cristo é o zelo.
Zelo é forte disposição, diligência e empenho aplicado na realização de algo.
O próprio Jesus nos apresenta o padrão desse zelo. Ele declarou que a sua comida era fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra (João 4:34). Séculos antes, Isaías profetizou que o Messias estaria vestido de zelo (Isaías 59:17). Em Cristo vemos o modelo perfeito de entrega, serviço humilde e busca contínua pela glória do Pai. Ele é a nossa referência absoluta.
Entretanto, a Escritura também nos ensina que nem todo zelo é saudável. Existe um zelo religioso que se desvirtua, que se desconecta das verdades fundamentais do evangelho e passa a produzir frutos perigosos.
É exatamente esse tipo de zelo que Jesus denuncia em Mateus 23. Ele fala de homens deformados, mas intensamente ativos; empenhados, mas espiritualmente corrompidos; trabalhadores incansáveis, porém dissociados da verdade. São capazes de atravessar terra e mar para fazer prosélitos, mas, ao fazê-lo, não conduzem pessoas a Deus, conduzem pessoas a uma versão distorcida da fé.
Aqui somos confrontados com uma pergunta incômoda:
Quantas vezes a pregação do evangelho é usada para a glória dos homens e não para a glória de Deus?
Ao olharmos para a história recente da igreja, percebemos ministérios que começaram bem e se perderam no caminho. Alguns sucumbiram ao orgulho, outros às carências emocionais, outros ao ressentimento não tratado, outros ainda a pecados ocultos. Mesmo assim, continuam levantando a bandeira do evangelho, arrebanhando homens e mulheres, enquanto semeiam em seus corações doutrinas falsas e uma espiritualidade adoecida.
O apóstolo Paulo descreve esse tipo de religiosidade de forma contundente:
“Tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes.” (2 Timóteo 3:5)
O grande perigo é que comportamentos carnais e motivações egoístas se misturam facilmente ao ministério quando o coração não é vigiado. O serviço cristão passa a ser um meio de alcançar objetivos pessoais, afirmação de identidade e realização de ambições internas.
O rei Saul é um exemplo trágico desse processo. Mesmo reconhecendo seu pecado, preferiu preservar sua honra diante dos homens a se humilhar diante de Deus (1 Samuel 15:24–30). O amor à posição tornou-se maior que o amor ao Senhor. Para um homem cheio de si, a glória humana sempre pesa mais do que a glória de Deus.
O rei Uzias segue a mesma lógica. Foi um líder forte, realizador, usado poderosamente por Deus (2 Crônicas 26:1–15). Porém, em determinado momento, passou a acreditar que sua força vinha de si mesmo. Deixou de depender do Senhor. O resultado foi humilhação, disciplina e uma vida encerrada na lepra (2 Crônicas 26:16–21).
Paulo resume essa verdade de maneira profunda:
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Coríntios 4:7)
O poder que carregamos é grande. O vaso, porém, é frágil. E Deus assim o determinou para que jamais confundamos instrumento com fonte.
Quando homens se apegam à posição, a liderança deixa de ser serviço e passa a ser conquista pessoal. Algo que precisa ser preservado a qualquer custo. A partir daí, tornam-se instrumentos de deformação espiritual daqueles que os seguem.
Esses líderes não lidam bem com críticas honestas. Não aceitam o contraditório. Diante de discordâncias, atacam o mensageiro em vez de examinar a mensagem. A verdade passa a ser tratada como um privilégio exclusivo deles, e os outros devem apenas se submeter.
O texto de Mateus sugere que esses homens são carismáticos, influentes e altamente persuasivos. Possuem grande força de vontade e enorme capacidade de convencimento. Por isso percorrem terra e mar. Não desistem facilmente, porque se veem como especiais.
Valorizam comportamentos padronizados, disseminam suas visões de mundo, de igreja e de ministério com entusiasmo contagiante. Aos poucos, formam seguidores que já não pensam por si mesmos, mas passam a replicar os ideais do líder, mesmo quando esses ideais não se alinham com as Escrituras.
Nesse ponto, os discípulos deixam de ser discípulos de Cristo e passam a ser discípulos de homens.
Esse é um terreno delicado. Existe um risco real de olharmos para fora e identificarmos esses desvios apenas nos outros, sem perceber que os mesmos perigos rondam o nosso próprio coração.
O orgulho nos torna intratáveis. Cria resistência à correção. Dificulta o arrependimento. Paulo reconheceu isso em si mesmo e afirmou que recebeu um espinho na carne justamente para frear suas inclinações orgulhosas (2 Coríntios 12:7).
Por fim, esses homens se tornam perigosos porque não ouvem ninguém. Não aceitam aconselhamento. Não se submetem. Consideram-se iluminados, acima de qualquer confronto ou correção.
Líderes autossuficientes caminham para a ruína.
Deus, em sua graça, nos oferece proteção por meio do companheirismo, da prestação de contas e da pluralidade ministerial. Esses elementos funcionam como freios contra as armadilhas do coração. Protegem o pastor e protegem a igreja.
Que o Senhor nos conceda graça para caminharmos com humildade nessa estrada sinuosa que é o serviço pastoral.




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