Eu não penso na morte.

Eu não penso na morte. Diante da tv não penso na morte.

Conversando com amigos e irmãos, não penso na morte.

Reunido com a família, a morte não existe.

Faço planos para o futuro e não penso na morte, mas ela está sempre perto.

Deito e acordo sem nela pensar, mas ela está sempre ali.

Tomo meu café da manhã, cumpro algumas tarefas e não penso na morte.

Leio um livro e viajo em seus temas sem pensar na morte.

Faço cobranças a mim mesmo e recrimino minhas limitações e desventuras por tanto querer e pouco conseguir,  mas não penso na morte.

Sonho e experimento desilusão. Brinco e me entristeço. Às vezes choro, outras, sou tomado por alegrias, mas não penso na morte. Mas, ela está sempre à espreita.

Planejo viagens com familiares e amigos. Admito que preciso tirar umas férias, mas não penso na morte.

Amanhã tenho visitas a fazer, algumas coisas pra resolver e depois quero ver um filme pra relaxar. Não penso na morte.

Hoje acordei animado, tomei meu café e conversei com a esposa. Tudo normal como sempre. Meu dia estava todo planejado, só não incluía a morte.

De repente, uma dor, um desconforto, um mal estar e tudo se apagou. Uma catástrofe, um acidente. A morte chegou sem ser convidada. Então descobri que ela era uma inquilina ignorada, sempre comigo, sabendo que tinha um encontro marcado naquela hora e lugar.

Meus amigos, meus familiares, meus planos, tudo ficou pra trás. As visitas, coisas em casa por fazer, palavras que não disse a quem amava, perdão que não pedi, e pessoas que não perdoei, tudo ficou pra trás. A morte chegou.

Eu não pensava na morte e ela sempre tão perto. Se eu soubesse que seria assim teria feito quase tudo de forma diferente. Agora acabou. Não consigo consertar o que ignorei e negligenciei. A morte chegou.

Obs:. Esse texto foi escrito no dia que Gal costa morreu. Uma breve reflexão sobre a fragilidade da vida.

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